Temporada de verão em Florianópolis é considerada boa, mas abaixo de 2016

Quem mais ganhou nesta temporada de verão foi o turista, que aproveitou as praias de Florianópolis com muito sol e calor, pouca chuva e menos gastos. O setor de serviços ampliou o quadro de funcionários na expectativa de um movimento idêntico ao da temporada de 2016. O problema é que os turistas não gastaram o esperado por restaurantes, hotéis e comércios. Uma das vítimas do pouco dinheiro movimentado é o garçom Fabiano Dutra, 33 anos, que perdeu o emprego na quarta-feira de cinzas. Para o secretário de Turismo da Capital, Vinícius de Lucca Filho, que ainda não tem os números oficiais da temporada, a percepção é de que o número de visitantes estabilizou, mas o gasto médio baixou.

Eduardo Costa, gerente do Floripa Hostel Barra da Lagoa, diz que a atual temporada é a mais fraca dos últimos cinco anos - Daniel Queiroz/ND
Eduardo Costa, gerente do Floripa Hostel Barra da Lagoa, diz que a atual temporada é a mais fraca dos últimos cinco anos – Daniel Queiroz/ND

Em setembro de 2016, Dutra deixou o emprego de zelador de camping na Barra da Lagoa para trabalhar como garçom. Ele estava de olho nas gorjetas pagas em dólar pelos visitantes estrangeiros. “Os poucos turistas que vieram seguraram o dinheiro e estão gastando pouco. Quem trabalhou no mesmo restaurante na temporada passada ficou empregado até a Páscoa, mas este ano eu e mais dois garçons fomos demitidos. Apesar disoo valeu a pena ter apostado nesta nova profissão”, diz.

Florianópolis recebeu 1,9 milhão de visitantes na temporada passada, segundo números da prefeitura. A expectativa era de que esse número fosse superado em 20%, com uma invasão de argentinos e a continuidade dos visitantes brasileiros.

A previsão da Infraero era de que a Capital recebesse 666 voos charters de países da América do Sul, mas 133 foram cancelados até 31 de janeiro. Nos voos domésticos, a taxa de cancelamento ficou em 3%. 

No Floripa Hostel Barra da Lagoa, o gerente Eduardo Costa exemplifica bem a diferença entre as últimas temporadas. “Em janeiro de 2016 estávamos brigando por camas, mas neste ano elas sobraram. A ocupação que oscilou entre 95% e 98% no ano passado, não passou dos 65% neste verão. Quem vem não consome nada além do café da manhã incluso na diária para economizar no almoço. A temporada não foi ruim, mas foi a mais fraca dos últimos cinco anos”, ressalta.

Quem comemora é a ambulante Inaê Varella, 30, que aluga cadeiras e guarda-sóis na Barra da Lagoa. “A temporada não está igual a de 2016, mas está muito boa. Percebo que ninguém sai da cadeira para almoçar ou comprar bebida, porque os turistas passam nos supermercados e vêm prontos para a praia”, diz.   

 
Voos charters – chegada no Aeroporto Hercílio Luz

País         Previsão 2017*    Realizados 2017**   Realizados 2016***

Argentina       480                       142                       280

Chile                   157                         91                       128

Paraguai           20                           9                          11

Uruguai              9                             3                            4

Total                666                        245                        423

* Previsão de 1º de novembro de 2016 a 30 de março de 2017

** Até 31 de janeiro de 2017

*** De 28 de novembro de 2015 a 13 de março de 2016

**** De todos os voos charters internacionais programados, 133 foram cancelados pelas empresas aéreas: 82 devido à baixa demanda de passageiros e 51 pela falta de autorização de operação da Agência Reguladora Argentina (dados levantados até 31/01/2017)

Gastos controlados e redução no consumo

Florianópolis passou por uma temporada sem problemas nos fornecimentos dos serviços públicos. Não foram registrados casos graves de falta de água e de luz. O sistema sanitário, apesar de deficiente no Norte e no Sul da Ilha, não causou o mesmo impacto negativo de janeiro de 2016, quando a praia de Canasvieiras sofreu com a poluição do rio do Brás.

Mesmo sem os números oficiais, o secretário de Turismo Vinícius de Lucca Filho acredita que a Capital recebeu um grande número de visitantes. “Sempre quando se fala em números de turistas, mesmo após a temporada, contamos somente com estimativas. Tem gente que faz o levantamento pelo consumo de energia elétrica, de água ou do lixo. Pelo que conversei com representantes dos setores de hotéis, bares e restaurantes, a temporada teve um grande número de visitantes, mas que gastaram menos”, explica o secretário de Turismo.

Cleison Rodrigues, que trabalha há três anos em um restaurante de Santo Antônio de Lisboa, diz que o turista mudou de hábito - Daniel Queiroz/ND
Cleison Rodrigues, que trabalha há três anos em um restaurante de Santo Antônio de Lisboa, diz que o turista mudou de hábito – Daniel Queiroz/ND

Essa também foi a percepção do maître Cleison Rodrigues, 20 anos, de um restaurante em Santo Antônio de Lisboa. Há três temporadas no estabelecimento, ele revelou que o visitante mudou de hábito em virtude da crise financeira. “A primeira opção de quem visita uma cidade litorânea é a praia. Se o tempo está bom, o turista só sai da praia no fim da tarde e não quer saber de restaurantes. Recebemos o mesmo número de clientes, mas que gastaram menos. Cada freguês consumia em média R$ 100 e este ano passou a gastar R$ 80”, relata.   

Em Canasvieiras, o marinheiro Maicon Sabino também trabalhou menos nesta temporada. “Em janeiro do ano passado trabalhamos com três lanchas com o banana boat, mas este ano foram apenas duas pela falta de movimento”, lamenta.

Sem turistas, comércio abre ciclo de promoções

O presidente da CDL (Câmera de Dirigentes Lojistas) Florianópolis, Lidomar Bison, aponta como um dos pontos determinantes para a não confirmação das reservas de hospedagem o alto valor dos aluguéis. Para ele, a projeção de aumento no número de visitantes não foi calculada corretamente, porque as reservas não estavam confirmadas. A solução foi abrir o ciclo de promoções.

A falta de fiscalização dos ambulantes ilegais também dificulta a vida dos comerciantes. “A temporada passada foi excepcional e será muito difícil de ser batida. Como recebemos muitos visitantes em 2016, quem faz locação por oportunidade aumentou os preços acima da média e o turista buscou outros destinos. Quando perceberam que não teriam como alugar, os preços caíram de uma forma ridícula”, diz Bison.

O presidente da CDL também cobra a efetiva fiscalização contra o comércio ilegal. Com o Centro dominado por ambulantes até o início de janeiro, os comerciantes sofreram com a concorrência desleal. “A Operação Floripa Legal chegou às praias somente em fevereiro e o comerciante que já vinha acumulando prejuízos desde o segundo semestre de 2016 não conseguiu recuperar as perdas. Com os estoques cheios, a solução foi antecipar as promoções de fim de estação”, afirma.

O empresário Edivaldo Moreira Silva, 38 anos, tem uma loja de moda praia em Canasvieiras há quatro anos. Ele lamenta o excesso de ambulantes não credenciados e a falta de fiscalização. “As vendas estão abaixo de 2016, mas acima de 2015. A temporada está boa, mas poderia ser bem melhor”, comenta.  

Empresário dispensou seis dos 20 temporários

Na esperança de repetir ou de ampliar o movimento em relação aos primeiros meses de 2016, o empresário Valdecir Flores Vinglas, 48 anos, arrendou mais um restaurante em Canasvieiras. Ele pensava em lucrar ainda mais neste verão. Pensando assim, contratou 20 funcionários temporários, mas o movimento não emplacou.

Valdecir Flores Vinglas, que contratou 20 temporários para o seu restaurante, já teve que dispensar seis funcionários - Daniel Queiroz/ND
Valdecir Flores Vinglas, que contratou 20 temporários para o seu restaurante, já teve que dispensar seis funcionários – Daniel Queiroz/ND

Vinglas se diz arrependido no investimento realizado. “Dos meus 20 temporários já dispensei seis. A filial que abri no início do verão fecharei na Páscoa e devo voltar somente na próxima temporada. O movimento está tão fraco que não conseguirei recuperar o valor investido”, reclama.

Aumento dos prestadores de serviço

O presidente do Sitratuh (Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Restaurantes, Bares, Lanchonetes e de Turismo e Hospitalidade na Grande Florianópolis), Anésio Schneider, comemora o bom funcionamento dos serviços públicos e destaca o aumento no número de contratados temporários. Ele acredita que o período é de renovação de equipe. “Esta temporada não está tão boa quanto a do ano passado, mas se equipara a de 2015. Destaque para o aumento das contratações de prestadores de serviço, que é um avanço. Por outro lado, a falta de mão de obra qualificada ainda é um problema do setor, pois traz impacto negativo ao turista, que não recebe um atendimento de excelência”, afirma.

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