“Teremos muitas dificuldades para cumprir as contas”, diz governador após greve

Em paralelo à retomada da normalidade em diversos setores de Santa Catarina desde quarta-feira após a greve dos caminhoneiros, o Governo do Estado tenta agora dimensionar os impactos econômicos dos dias de paralisação. De acordo com o governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB), o impacto diário negativo na arrecadação deverá ser sentido nos meses de junho, julho e agosto. Além dos cortes já anunciados nos últimos meses, o enxugamento da máquina pública será intensificado para tentar recuperar os efeitos da greve. Uma reunião nesta sexta-feira (1º) vai reunir o governo e as principais entidades do setor produtivo catarinense para fazer uma radiografia completa das perdas com a greve e encaminhar ações em conjunto para retomar a economia estadual.

“O impacto é evidente. Teremos muitas dificuldades a partir de junho para cumprir as contas. Faremos ajustes, cortes e racionalização maior ainda. Vamos começar uma campanha que estamos preparando para estimular o consumo de produtos catarinenses para que nós catarinenses possamos consumir mais os nossos produtos. É um momento preocupante, teremos bastante dificuldades”, afirmou ele em coletiva de imprensa na manhã desta quinta-feira (31). O impacto total nas contas públicas ainda está sendo avaliado pelo Governo. De acordo com o governador, é possível que seja dado auxílio com crédito para estimular a produção em Santa Catarina.

De acordo com o secretário de Estado da Agricultura, Airton Spies, a Ceasa (Central de Abastecimento do Estado de Santa Catarina) já oferta todos os produtos necessários ao abastecimento da população. O impacto no agronegócio foi “dramático, muito grande”, segundo o secretário. “Desde o início o nosso grande objetivo era passar pela crise sem riscos à sanidade e preservar minimamente o bem-estar animal. Essa estratégia teve importante participação do setor produtivo e não tivemos mortandades por inanição. Chegamos hoje (quinta-feira) à normalidade em termos de abastecimento de ração aos animais e ontem (quarta) reiniciaram os abates”, diz ele.

De acordo com o Governo do Estado, o abastecimento de combustíveis para a população deverá estar normalizado até o fim de semana. Da distribuidora da Petrobras, em Antônio Carlos, saíram 1,2 milhão de litros de gasolina que garantiram a distribuição nos municípios da Grande Florianópolis.

Coletiva de imprensa após a greve dos caminhoneiros - Felipe Alves/ND
Coletiva de imprensa após a greve dos caminhoneiros – Felipe Alves/ND

Preços de alimentos devem ser mais altos nos próximos dias

O consumidor deve sentir no bolso nos próximos dias o impacto da greve, mas o secretáriode Estado da Agricultura, Airton Spies, avalia que com a retomada do transporte nas estradas, a normalidade de preços deve ser regularizada a curto prazo. Um dos setores mais afetados pela greve, o agronegócio teve perdas significativas com produtos perecívies e com a alimentação dos animais nos campos.  “Não prevemos impacto significativo duradouro sobre os preços dos alimentos e preços pagos aos produtores”, diz ele.

Um dos setores mais impactados foi o de produção de leite. Santa Catarina produz 9 milhões de litros de leite por dia e, durante a greve, 6,5 milhões de litros diários tiveram que ser desperdiçados. “Isso não representou uma ameaça à sanidade, mas houve um prejuízo econômico muito grande. São 48 mil produtores de Santa Catarina que entregam leite”, afirma.

O setor de hortifrutigranjeiro também teve perdas significativas. A consequência será o aumento dos preços nos próximos dias. “As perdas são das cadeias produtivas como um todo. As respostas mais rápidas são dos hortifrutigranjeiros. Com a volta do transporte, a normalidade dos preços deve acontecer”, diz Spies.

As maiores empresas do setor retomaram as atividades desde terça-feria. Até a manhã de quinta, todas as plantas da Aurora estavam funcionando, com exceção do Rio Grande do Sul. A Seara operava com todas as unidades na quinta e a BRF iniciou na terça em Videira e estava expandindo a normalização gradativamente.  O abate de animais, retardado por oito dias no Estado, voltou a ser feito na quarta-feira. Por dia, o Estado abate 40 mil suínos e 3,2 milhões de aves. A maior preocupação foi com relação à alimentação dos 7 milhões de suínos e as 206 milhões de aves, que tiveram  comida reduzida neste dias para sobreviver.

Treze pessoas foram presas durante a greve em Santa Catarina

Vinte e três pessoas foram conduzidas pela polícia e 13 foram presas em Santa Catarina por conta da greve, em Caçador e Imbituba. De acordo com a Polícia Civil, nenhuma era caminhoneiro. Entre os crimes, estão desacato, incitação ao crime e constrangimento ilegal. De acordo com o delegado geral da Polícia Civil, Marcos Flávio Ghizoni Júnior, desde o início da greve havia policiais a paisana para identificar os líderes do movimento e constatar os crimes.

Segundo ele, não há um líder que comande todo o movimento no Estado, mas lideranças espalhadas pelas cidades. Uma sequência de inquéritos policiais foram instaurados e as pessoas serão responsabilizadas pelos seus atos, de acordo com Ghizoni. Sobre possibilida de locaute em Santa Catarina, ou seja, envolvimento de empresários liderando o movimento, o delegado afirma que não é possível relevar detalhes neste momento. Em casos isolados, como o do apedrejamento de um veículo particular em Imbituba, o autor poderá responder por tentativa de homicídio a uma criança que estava no carro.

De acordo com o comandante a Polícia Militar de Santa Catarina, coronel Araújo Gomes, a polícia continua mobilizada nos próximos dias. “Entramos numa terceira etapa da nossa operação. Na primeira, minimizamos os efeitos da manifestação. Depois, após diretriz do governo, nós intervimos para acabar com o movimento e agora passamos a monitorar a volta da normalidade, intensificando presença no perímetro urbano”, diz ele. A PM atuará agora para ajudar a controlar os preços abusivos, as filas, e a corrida a alguns locais de suprimentos.

Governo vai agir com “impaciência” sobre movimentos políticos

Na manhã de quinta-feira, o governador fez uma avaliação das operações realizadas durante a semana para dar fim ao movimento no Estado. Para Pinho Moreira, houve pressões de todos os lados e houve “equilíbrio para tomar as decisões nas horas certas”.

Até o domingo, quando houve uma grande manifestação com apoio da população em Palhoça e em outras cidades, o governo atuou com “paciência”, segundo Moreira. “Na segunda esperávamos que o movimento refluísse, mas ele ganhou força, talvez pela presença maciça da população no domingo. Na segunda, a ideia era clara de que (o movimento) perdeu o caráter reivindicatório e passou a ser um movimento político, de posições extremistas. De forma organizada, nós agimos de forma a fazer valer a autoridade do Estado”, afirmou o governador.

Apesar de não haver mais bloqueios em estradas de Santa Catarina, ainda há pontos de manifestações em estradas estaduais e federais. De acordo com Pinho Moreira, agora a atuação do Estado será com “impaciência”. “Entendemos a política equivocada de preços da Petrobras. Concordamos com o movimento reivindicatório. No momento em que percebeu-se essa virada de que não era mais greve reivindicatória, foi dada a decisão de reação a esses movimentos”, disse.

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