Tragédia de avião que caiu no Cambirela completa 70 anos nesta quinta-feira

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Às 13h30 do dia 6 de junho de 1949, o comandante do Douglas C-47 2023 da FAB (Força Aérea Brasileira) decolou do aeroporto Hercílio Luz em direção ao norte, tangenciando para a esquerda, como era de praxe, e tomando o rumo oposto, pois o destino seguinte do voo era Porto Alegre.

Bimotor protagonizou o maior acidente aéreo da época, matando 26 pessoas – Biblioteca Central/Padre Aloísio Kolberg/ND

Dez minutos depois o controle em terra perdeu o contato com a aeronave, mas só desconfiou de que algo grave havia acontecido algumas horas após, quando uma ligação da capital gaúcha pedia informações sobre o avião, que não havia chegado no horário previsto. Naquela tarde chuvosa e de intensa neblina, o bimotor protagonizou o maior acidente aéreo até então registrado no país, matando os 26 ocupantes, a maioria militares, seis deles da tripulação.

Iniciado no Rio de Janeiro, aquele voo a serviço do Correio Nacional terminou 800 metros acima do nível do mar, na chamada Pedra da Bandeira, no morro do Cambirela. O avião era robusto, um símbolo de sucesso da aviação desde que fora utilizado na Segunda Guerra pelos americanos e aliados, mas se despedaçou com o choque, arremessando corpos e pedaços do motor e da fuselagem a centenas de metros de distância.

Jornais de Florianópolis e do Rio de Janeiro de 1949 noticiaram o “desastre do Cambirela” – Biblioteca Nacional Digital/ND

Se houvesse chances de alguém sobreviver, as 14 horas de demora para a chegada do socorro eliminaram qualquer esperança dos parentes das vítimas de encontrarem algum sinal de vida no morro gelado e castigado pelos ventos cortantes que vinham do mar.

Agora, sete décadas depois da tragédia, um morador de Santo Amaro da Imperatriz que se apaixonou pela história fatídica do cargueiro militar está preparando um livro onde pretende contar tudo sobre o acidente. A obra de Silvio Adriani Cardoso, funcionário de um resort termal no município, já tem nome – “O Último Voo do C-47 2023 – O Desastre Aéreo do Cambirela, 70 Anos Depois” – e narra em detalhes a trajetória do voo, da saída do Rio de Janeiro até o impacto com a montanha, passando pelas escalas em São Paulo, Curitiba e Florianópolis.

Além disso, o autor faz um histórico do C-47, fabricado aos milhares em Oklahoma (EUA) para operações de guerra e depois vendido para o resto do mundo como avião de transporte de passageiros e carga. O modelo que caiu no Cambirela era utilizado como correio aéreo e para transportar militares – e civis, em casos eventuais – em deslocamentos pelo país.

Como tudo o que se relaciona ao acidente, cada pedaço do C-47 vem sendo há 20 anos objeto de minuciosa pesquisa em jornais da época, entrevistas com descendentes das vítimas, depoimentos de especialistas em aviação e leituras de obras e sites que trazem a história de uma das aeronaves mais marcantes da história da aviação.

Pesquisa em diversas fontes

A cada subida ao morro em busca de respostas, a partir de 1989 (uma década antes de iniciar efetivamente as pesquisas), Silvio Cardoso era bombardeado com mais dúvidas, porque faltava descobrir onde o C-47 caiu exatamente e o que ainda poderia ser localizado como destroço tantos anos após o sinistro.

As perguntas aos moradores do Furadinho e Guarda do Cubatão, comunidades no pé do morro, que tiveram parentes entre os primeiros a subir após o choque do avião com o morro, tinham respostas evasivas. Uns negavam o fato, outros falavam em lenda. Quando o repórter Celso Martins, do extinto “AN Capital”, fez uma reportagem em 1999 sobre os 50 anos da tragédia, Silvio decidiu ir atrás de mais explicações sobre o ocorrido.

Além de folhear velhos periódicos na Biblioteca Pública do Estado, ele também foi atrás de imagens inéditas no acervo do Colégio Catarinense, cujo diretor geral, o padre João Alfredo Rohr, famoso botânico catarinense e criador do Museu do Homem do Sambaqui, participou com seus alunos do resgate dos corpos no Cambirela.

Também vasculhou documentos e relatórios no 14º Batalhão de Caçadores, atual 63º BI, no Estreito, quartel-general da operação de resgate das vítimas, e ouviu parentes do comandante da aeronave, prineiro-tenente aviador Carlos Augusto Freitas Lima, e de outros militares envolvidos no socorro no Cambirela.

Um lance de sorte foi ter encontrado no Rio de Janeiro um militar conhecido como tenente Carqueja, de 95 anos, que subiu o morro no dia 7 de junho e, dono de uma memória privilegiada, lembra de todos os nomes dos colegas e de detalhes da operação. A crença mais disseminada era a de que o avião voava abaixo do teto quando bateu no morro. Parte dos destroços foi vista no dia seguinte à tragédia por um piloto da PanAir que se preparava para descer no aeroporto Hercílio Luz: graças ao sol, ele viu reflexos da fuselagem de alumínio da aeronave destruída.

Descendentes negam saque das vítimas

A pesquisa de Silvio Adriani Cardoso esbarrou em algumas resistências de familiares das vítimas, mas também em descendentes dos moradores do pé do morro escaldados com denúncias de saques no dia da queda e depois dela. Eles falam numa explosão, no mau tempo e nas trilhas que conheciam como ninguém, mas negam que esses parentes tenham arrancados dentes de outro ou cortado dedos das vítimas para levar os anéis.

O que relatam, de ouvir dizer, e também pelo depoimento dos grupos de salvamento, é que o morro virou um cenário terrível, com corpos estraçalhados e carbonizados e o avião ainda em chamas. A repercussão foi ampla. Revistas como “O Cruzeiro” e a americana “Times” deram a notícia e a consternação no Rio, então capital da República, foi imensa.

O resgate terminou na tarde de 10 de junho de 1949, e de lá para cá o acidente – só suplantado em gravidade pela queda do Boeing da Transbrasil no morro da Virgínia, em Ratones, em abril de 1980 – ainda suscita a curiosidade, pelas circunstâncias do sinistro, pelas suspeitas de saques e porque ainda há fragmentos do avião na montanha, incluindo as duas hélices, nunca encontradas.

A falta de algumas respostas e o surgimento de informações inéditas, de novas fontes e até de pequenas peças do avião (encontradas por caçadores ou curiosos) acabaram por retardar a conclusão do livro de Cardoso, que também busca uma maneira de viabilizar a publicação.

Um dos saldos desse contato com a tragédia e da curiosidade que ela engendrou é que Cardoso se tornou um montanhista assíduo, a ponto de levar os grupos do hotel onde trabalha para o morro do Cambirela, que conhece tanto quanto os mateiros da região. Ele já escalou montanhas em vários Estados brasileiros e também na Pagônia argentina, e pratica esportes radicais na região de Santo Amaro da Imperatriz, pródiga em morros, rios e cachoeiras.

Professor de educação física, ele deu o nome de Douglas ao primeiro filho em homenagem ao fabricante do avião que é a fonte de suas investigações e também o nome de um superior com quem fez o primeiro voo, quando servia na Base Aérea de Florianópolis, o primeiro-tenente aviador Douglas Amilcar Cravalon.

CURIOSIDADES

  • Em 1961, um avião modelo P-6, pertencente à Esquadrilha da Fumaça, caiu na praça Benjamin Constant, no Centro de Florianópolis (há ainda hoje uma placa no local fazendo referência ao acidente), e uma das asas foi parar no teto casa de Paulo Weber Gonçalves Vieira da Rosa (depois prefeito da Capital), em cima do quarto da filha Ceci, foi uma das fontes da pesquisa de Silvio Adriani Cardoso. Em 1949, Vieira da Rosa era comandante do 14º Batalhão de Caçadores, que participou do resgate das vítimas no Cambirela.
  • Exatos quatro anos antes do acidente no Cambirela, em 6 de junho de 194 4, ocorreu a maior operação aeronaval da história, no chamado Dia D, quando tropas aliadas invadiram a Normandia, no norte da França, e começaram a decretar a derrota dos nazistas na Segunda Guerra Mundial.
  • O resgate dos corpos das vítimas do acidente com o C-47 foi muito difícil, como conta o pesquisador Silvio Cardoso. Em condições adversas de tempo, subir a montanha foi uma provação para os soldados e voluntários, mas descer o terreno íngreme e cheios de cursos d’água e cachoeiras se mostrou ainda mais desafiador. “Os restos desceram em sacos de lonas de barracas”, conta ele.

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