Um mês após corpo ter sido encontrado, família ainda não conseguiu sepultar idoso

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O próximo domingo, 18 de agosto, não será o mesmo para a família Amaral. Na data, eles comemorariam o aniversário de 84 anos do seu Antônio José da Luz Amaral Filho, mais conhecido como Vô Amaral.

Os familiares do idoso que desapareceu na tarde do dia 1º de junho no bairro Campeche, em Florianópolis, esperam há quase três meses por respostas oficiais. Entre elas, a confirmação de que o corpo encontrado em um matagal no mesmo bairro, há aproximadamente um mês, em 18 de julho, é mesmo do Vô Amaral.

Antônio José da Luz Amaral Neto espera a confirmação da identidade e a liberação do corpo para o sepultamento do pai – Anderson Coelho/ND

“Desde 18 de julho, estamos esperando um atestado de óbito para poder sepultar o meu pai. Queremos um velório digno para ele. A partir daí, com as investigações da polícia, estamos confiantes que vamos saber efetivamente o que aconteceu. Nós não temos uma resposta e a sociedade também precisa saber o desfecho desse desaparecimento”, lamentou Antônio José da Luz Amaral Neto, 55 anos, filho do idoso.

Embora a polícia tenha quase certeza que se trate de Vô Amaral, em função das vestimentas e dos documentos encontrados junto ao corpo, a liberação por parte do IML (Instituto Médico Legal) depende da confirmação da identidade, que só pode ser feita por meio de exame de DNA, uma vez que o corpo estava em estado avançado de decomposição.

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Segundo o delegado Wanderley Redondo, da Delegacia de Polícia de Pessoas Desaparecidas, não foi possível fazer exame das digitais e da arcada dentária por causa do avançado estado de decomposição e por não encontrarem a dentadura que Amaral costumava utilizar.

O exame de DNA leva cerca de 30 dias para ser concluído e, justamente no próximo domingo (18), data do aniversário do seu Amaral, completará um mês que o corpo foi encontrado. Segundo a família, no fim de julho, foi feita uma solicitação ao IGP (Instituto Geral de Perícias), por meio do Governo do Estado, pedindo urgência na conclusão dos laudos, por conta do contexto da situação.

“Começamos outro processo de angústia. O primeiro foi por conta do desaparecimento; o segundo, pela demora dos resultados. O somatório dos 48 dias de desaparecimento com os quase 30 dias de espera para a despedida do meu pai, achamos que o resultado é muito alto para esse caso. A cada dia que passa, aguardamos por notícias”, lamenta Antônio José, o filho.

Entenda o caso

Antônio José da Luz Amaral Filho, o Vô Amaral ou Tonho, como era carinhosamente chamado, desapareceu no dia 1º de junho deste ano, no bairro Campeche, no Sul da Ilha, nos arredores do restaurante do neto, na avenida Campeche.

Ele portava documentos, um cartão de banco e uma pequena quantia em dinheiro. Segundo a família, o idoso tinha lapsos de memória em decorrência da senilidade e de medicamentos de uso contínuo e foi visto pela última vez perto das 15h.

Idoso desapareceu no bairro Campeche no dia 1º de junho deste ano – Anderson Coelho/ND

O filho conta que caminhar era um hábito do qual seu Amaral gostava, apesar de certa dificuldade de locomoção. Ele costumava frequentar uma praça próxima da casa onde morava com o filho, a nora e dois netos, no bairro Agronômica. “Ele caminhava pela manhã e à tarde. Ia ao shopping encontrar os amigos. Fazia parte da rotina dele essas caminhadas”, contou Antônio José.

Conforme os familiares, ele também usava o transporte público e, por isso, logo que eles deram conta do desaparecimento, uma das possibilidades levantadas foi a de que Vô Amaral poderia ter entrado em um ônibus e ido para outro lugar.

Antônio José conta que o pai gostava de explorar outras regiões da cidade, como o Norte e o Sul da Ilha, mas que ele sempre voltava para casa após os passeios. Desde que se mudou de Curitiba para Florianópolis, em 2011, 1º de junho foi a primeira noite que não dormiu em casa.

De acordo com a família, o idoso conhecia a região do restaurante do neto e saberia voltar ao estabelecimento. A família, à época, não descartou a possibilidade de que seu Amaral tenha tido um “apagão” repentino devido à idade avançada. Ele também foi procurado em hospitais e com bombeiros da região.

Em 3 de junho, foram observadas imagens de câmeras de comércios e edifícios próximos do local do desaparecimento, mas sem sucesso. A partir daí, a família concluiu que Vô Amaral não deveria ter saído de um raio de 200 metros do estabelecimento comercial onde ele foi visto pela última vez.

“Isso sempre foi muito preocupante e intrigante para a família, porque se trata do desaparecimento de um idoso em via pública”, relatou o filho.

“Se ele foi vítima de um crime violento, precisa ser investigado. Não podemos descartar nenhuma hipótese. Queremos respostas”, reforçou Antônio José.

Quase três meses de angústia

O período em que o idoso ficou desaparecido foi angustiante para a família que não tinha sequer uma pista sobre o paradeiro do patriarca. Amigos, clientes que frequentam o restaurante do neto, moradores do Campeche e vizinhos, também auxiliaram nas buscas.

“Temos muito o que agradecer às pessoas que nos ajudaram nas buscas, aos que compartilharam o caso nas redes sociais e também à imprensa que divulgou a notícia”, destacou Antônio José.

No Paraná, onde Vô Amaral morou por 55 anos, amigos, parentes e até políticos locais mobilizaram-se em busca dele.

O filho e o amigo, Oldemar Peixoto, relembram momentos com Antônio Amaral Filho – Anderson Coelho/ND

O dia em que o corpo foi encontrado, a 150 metros do restaurante da família, representou um “ponto e vírgula” no sofrimento da família.

“A angústia do desaparecimento, de certa forma, passou, porque não saber onde ele estava por 48 dias foi terrível. Não conseguíamos dormir, alteramos a alimentação, o organismo. Afetou muito os parentes que moravam com ele, principalmente”, contou o filho.

Vô Amaral

Natural de Pernambuco, Vô Amaral mudou-se para o Paraná na década de 1960, onde formou família e atuou como advogado. Pai de dois filhos, Antônio, 55 anos, e Giselly, 53, e avô de cinco netos, escolheu Florianópolis para viver a partir de 2011, após a morte da esposa. Com a mudança, começou a desligar-se da rotina do Direito.

Vô Amaral convivia bem com os familiares, sobretudo com o neto de 25 anos – com quem dividia até o quarto. “Eles eram muito parceiros. Nós costumávamos almoçar todos os dias juntos. Meu pai tinha amigos da mesma faixa etária dele, com quem costumava se encontrar”, contou Antônio José.

Companheiro de passeios de Amaral, o aposentado Oldemar Peixoto, 92 anos, descreve o amigo como uma pessoa comunicativa, que gostava de falar sobre política.

“Ele tinha uma conversa muito boa. Quando a gente se desentendia ou discordava de algum assunto, eu dizia para ele: sou o mais velho e quero respeito”, lembra seu Oldemar. As recordações, no entanto, não impedem o aposentado de questionar o tempo de espera pelo desfecho do caso.

Oldemar Peixoto, de 92 anos, costumava conversar com o amigo na praça – Anderson Coelho/ND

“Quando eu saio de casa, todos perguntam sobre o meu pai e quando será a despedida dele”, comentou Antônio José.

Sepultamento

Assim que obtiverem a confirmação da identidade e a liberação do corpo, a família planeja cremar o corpo do idoso. O velório, segundo os familiares, será no Cemitério do Itacorubi e as cinzas serão colocadas junto ao túmulo da mulher de Antônio, em Curitiba. Na capital paranaense, a família pretende realizar outra cerimônia.

Contraponto

Resultados de exames periciais, entre eles o de DNA, serão decisivos para confirmar se o corpo encontrado em 18 de julho é mesmo de Antônio José da Luz Amaral Filho.

De acordo com o delegado Redondo, o exame de DNA foi pedido no fim de julho. A família afirma que o material genético dos dois filhos já foi coletado no período em que ele estava desaparecido. O exame leva cerca de 30 dias para ser concluído, porém, conforme Redondo relatou no dia 6 de agosto, foi pedido um prazo mais curto, de dez dias, para que o corpo possa ser liberado à família.

O IGP informou à reportagem do ND+ na manhã desta quinta-feira (15) que o avançado estado de decomposição do corpo dificulta a análise das amostras e a consequente conclusão dos laudos. Segundo o órgão, foram feitas várias tentativas para tentar identificar o corpo.

A causa da morte, segundo o IGP, é mais uma etapa difícil de avaliar por causa do estado em que o corpo foi encontrado. Não há previsão para a conclusão dos laudos e muito menos para a liberação do corpo à família.

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