Empresária joinvilense mantém a esperança de cura na dupla batalha contra o câncer

Com a doença na fase metastática, Marli Forte Mello acredita na eficácia da substância fosfoetanolamina para vencer a doença, enquanto aguarda liberação da droga

Fabrício Porto/ND

Enquanto espera boa notícia dos médicos e pesquisadores, Marli segue sua vida com o apoio da família, e em especial do marido, Alfredo Souza Mello, com que está casada há mais de 30 anos

Em meio às campanhas do Outubro Rosa, uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) trouxe à tona a discussão sobre a eficácia da fosfoetanolamina sintética, uma droga que supostamente seria a cura para todos os tipos de câncer. De um lado, pesquisadores e oncologistas afirmam que a substância química não passou por todos os testes e que não existe demonstração que comprove a ação efetiva contra a doença. Na outra ponta, pessoas com câncer e seus familiares acreditam que a fosfoetanolamina pode ser a única chance de cura e estão dispostos a serem cobaias.

A joinvilense Marli Forte Mello, 52 anos, é uma destas pessoas que esperam ansiosamente pela liberação da substância química. Em 2013 ela descobriu que estava com câncer de mama em estágio avançado e, por isso, teve que fazer a mastectomia total, o que não a permitiu fazer a reconstrução da mama.

Marli atribui a descoberta tardia da doença a erro médico, pois diz que dois profissionais diziam que ela tinha pequenos cistos líquidos que nada tinham a ver com o câncer. Quando a doença foi efetivamente confirmada, não restou outra alternativa que não a retirada até mesmo do músculo da mama, o que não permite cirurgia reparatória.

Apesar do susto, depois de passar pela quimioterapia e radioterapia, ela pensou que estava curada, mas no início deste ano exames mostraram que o câncer havia se espalhado para os ossos, afetando a coluna. “Eu não sabia nada sobre a metástase. Fui alertada de que o câncer poderia voltar na outra mama, mas não desta forma”, contou ela.

O câncer metastático não tem cura. Marli não está fazendo tratamento de quimioterapia ou radioterapia, mas está tomando um remédio que inibe o avanço da doença. “Estamos cientes de que, a qualquer momento, este remédio pode deixar de fazer efeito”, afirma ela. Por isso, ela e a família se agarram às promessas de cura desta substância e esperam que ela seja liberada para o uso o quanto antes. “É preciso continuar os estudos e fazer os testes para que a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] aprove logo este medicamento. Eu me disponho a participar deste teste e de qualquer outro que tenha chances de curar o câncer”, diz Marli.

Enquanto espera uma boa notícia dos médicos e pesquisadores, Marli segue sua vida com o apoio da família e, em especial, do marido, Alfredo Souza Mello, apesar da rotina diferente da qual estava acostumada antes de ter a doença. Quando o câncer atingiu a coluna, ela quebrou uma vértebra e conta que por pouco não ficou paraplégica. “Fiz uma cirurgia na coluna para colocar alguns pinos que a sustentem melhor, mas essa cirurgia não seria necessária se os médicos tivessem descoberto a metástase antes, quando eu comecei a ter dores na coluna”, lamenta ela. Por conta disso, agora suas caminhadas ficam limitadas ao pátio da chácara onde mora, no bairro Boehmerwald. “Depois de descobrir o câncer, eu não faço mais planos para minha vida. Vivo o presente, mas mantenho a esperança de que encontrarão a cura para esta doença”.

Divulgação/ND

Marli no hospital, logo depois de ser submetida à cirurgia de coluna: o único plano que ela faz é continuar vivendo

Possível uso da substância divide opiniões de médicos e pacientes

Segundo um artigo publicado no jornal científico “The Oncologist” em 2005, aproximadamente 30% das mulheres inicialmente diagnosticadas com câncer de mama nos Estados Unidos acabam desenvolvendo a progressão da doença, inclusive a metástase. Como a doença ainda não tem cura nesta fase, o uso da fosfoetanolamina é visto como uma alternativa de tratamento por muitos pacientes, embora não recomendado pelos médicos.

“É preciso que pesquisadores sérios concluam a pesquisa e isso ainda vai levar muito tempo. Por enquanto não há comprovação de que esta droga possa ser usada no tratamento de câncer. Indicamos aos pacientes que sigam as orientações de seus médicos e não parem de tomar as medicações receitadas para tentar ir atrás desta droga, a qual está alimentando no paciente uma esperança que não é verdadeira”, diz Luís Fernando da Silveira Lobo Cicogna, especialista em cancerologia e responsável técnico pela Oncologia Clínica do Hospital Municipal São José.

A mesma opinião é compartilhada pelo oncologista Dráuzio Varella, que esteve em Joinville nesta quarta, para uma palestra sobre a doença, em homenagem ao Outubro Rosa e aos 20 anos do CHO (Centro de Hematologia e Oncologia) de Joinville.

Divulgação/ND

Médico especialista em cancerologia, Luís Fernando da Silveira Lobo Cicogna

Fosfoetanolamina não é medicamento, afirma USP

O STF suspendeu a decisão que havia proibido a distribuição da fosfoetanolamina sintética. Com isso, a USP (Universidade de São Paulo), local onde a droga estava sendo produzida, foi obrigada a fornecer o produto a pacientes que já estavam fazendo o tratamento. Porém, na semana passada, a instituição de ensino emitiu uma nota esclarecendo que a fosfoetanolamina não é um remédio e que não desenvolveu estudos clínicos controlados em humanos.

“Não se trata de detalhe burocrático o produto não estar registrado como remédio – ele não foi estudado para esse fim e não são conhecidas as consequências de seu uso”, afirmou a instituição em declaração oficial. Entretanto, na mesma nota de esclarecimento, a USP alegou que estudos clínicos suplementares podem ser desenvolvidos no âmbito da universidade.

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