Engenhos de farinha: uma prática tradicional que se reinventa

Turismo de experiência pode ser uma saída para a continuidade da atividade artesanal

Em pouco mais de 50 anos, Florianópolis deixou de ser predominantemente rural e passou por profundas transformações econômicas e arquitetônicas, na esteira de um acelerado processo de urbanização. A modernidade trouxe inúmeros benefícios, mas também dificultou a manutenção de atividades artesanais, como a feitura da farinha de mandioca que alimentava boa parte da população e servia como moeda na troca por outros bens de consumo.

Mandioca, matéria-prima para a farinha e inúmeros subprodutos que fazem parte da cultura culinária do manezinho da Ilha – Anderson Coelho/NDMandioca, matéria-prima para a farinha e inúmeros subprodutos que fazem parte da cultura culinária do manezinho da Ilha – Anderson Coelho/ND

Para grande parte das famílias proprietárias de engenhos, a produção deixou de ser viável e passou a ser vista como hobby, um espaço de preservação da memória e de resgate do hábito dos encontros para as farinhadas.

Talvez, essa reinvenção seja o caminho para a continuidade. Surgidos entre 1748 (com a chegada dos açorianos) e 1756 em Florianópolis, os engenhos são o palco perfeito para resgatar esse inventário cultural da Ilha de Santa Catarina.

É nisso que os proprietários do Sítio do Vale Encantado, no Rio Tavares, apostam. Sérgio Murilo dos Santos (56) e o filho Diego Murilo dos Santos (35) exploram outra faceta da atividade, baseada no turismo de experiência. Donos de um engenho movido a motor, que pertencia à família e ficou parado por 12 anos, eles resolveram retomar a atividade, com foco nas novas gerações.

Diego e o pai, Sérgio Murilo do Santos, querem trazer as novas gerações para o ambiente do engenho – Anderson Coelho/NDDiego e o pai, Sérgio Murilo do Santos, querem trazer as novas gerações para o ambiente do engenho – Anderson Coelho/ND

“A gente procura proporcionar essa vivência para as crianças, estabelecendo parcerias com escolas que trazem os estudantes para ter o contato direto com a natureza e conhecer o engenho”, explica Sérgio. O objetivo é fazer com que os mais jovens formem uma memória afetiva e criem vínculos com os engenhos, o que pode despertar a necessidade de preservação desse patrimônio cultural.

Santos afirma que não há como competir com a indústria. “Leva dois anos para colher a mandioca, com cerca de quatro capinas por ano. Ainda tem a questão dos equipamentos que não tem mais quem faça. O processo é bastante artesanal, então teria que colocar um preço muito alto no produto para compensar os custos”, analisa. “Precisamos criar mecanismos para viabilizar a produção artesanal, como a definição de áreas de plantio e incentivos para o turismo cultural”, pondera Sérgio.

Mãos de Diogo Murilo dos Santos ao manipular a farinha. O Turismo de experiência se torna uma reinvenção da prática artesanal da produção de farinha em Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/NDMãos de Diogo Murilo dos Santos ao manipular a farinha. O Turismo de experiência se torna uma reinvenção da prática artesanal da produção de farinha em Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/ND

Seu filho Diego, fisioterapeuta e responsável por fornear a farinha do sítio, aponta alguns motivos que inviabilizaram o trabalho como atividade puramente comercial. “O surgimento das fábricas de farinha, o projeto do Ibama que proibiu as roças nos morros na década de 1980, a ação da Vigilância que acabou com o uso de bois nos engenhos e a política municipal de uso do território que excluiu as áreas rurais do plano diretor são alguns desses fatores”, afirma Diego.

Sacos de aniagem substituem os tradicionais tipitis na prensagem da massa de mandioca – Anderson Coelho/NDSacos de aniagem substituem os tradicionais tipitis na prensagem da massa de mandioca – Anderson Coelho/ND

“Por conta disso, muitos proprietários começaram a fracionar e vender as terras e, em pouco mais de 50 anos, a área rural da Ilha foi reduzida de 80% para 5% do território”, analisa. As famílias, que eram numerosas, ficaram cada vez menores e hoje, para realizar uma farinhada, é preciso contar com a participação de pessoas da comunidade.

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Farinhadas culturais

A utilização dos engenhos como centros culturais também é a aposta do Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa. Na propriedade construída em 1860 e onde ainda são utilizados bois para mover a engrenagem, são realizadas quatro farinhadas por ano em parceria com agricultores locais, que plantam a mandioca, e amigos e vizinhos que participam da produção.

Com a proibição do uso de bois, engenhos passaram a utilizar motor – Anderson Coelho/NDCom a proibição do uso de bois, engenhos passaram a utilizar motor – Anderson Coelho/ND

A próxima acontece neste sábado (24) a partir das 19h30 e no domingo (25) com início às 11h. A programação inclui novena do Divino Espírito Santo, shows, gastronomia típica, feitio da farinha e apresentação do boi de mamão, com entrada franca.

Segundo um dos proprietários, Cláudio Agenor de Andrade, a estrutura é uma das mais antigas da Ilha e foi tombada como patrimônio cultural estadual e municipal. Com isso, o espaço se transformou em local aberto à visitação, atraindo estudantes e interessados em saber como era essa cultura. “O objetivo é repassar os saberes acumulados por gerações no feitio da farinha de mandioca e um pouco mais sobre a história colonial da Ilha de Santa Catarina”, afirma.

ONG mapeia engenhos no Estado

Um mapeamento realizado no ano passado pela ONG Cepagro, que promove a agroecologia em comunidades rurais e urbanas, apontou 89 unidades em seis municípios catarinenses: Imbituba, Garopaba, Palhoça, Florianópolis, Bombinhas e Angelina. Desse total, 65 estavam em funcionamento, mas apenas 29 deles informaram sua produção, que chegou a 27 toneladas de farinha.

Já em Florianópolis, onde havia mais de 400 unidades produtivas, restaram cerca de 18 ativas, segundo levantamento da organização. Os engenhos em funcionamento estão localizados nos bairros Sertão do Ribeirão, Campeche, Rio Tavares, Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa, Barra do Sambaqui, Praia Brava, Ponta das Canas, Santinho, Rio Vermelho e Canasvieiras. Dessas, oito informaram uma produção de 5.600 quilos de farinha em 2018.

Correia do motor que gira a pá e mexe a farinha no forno – Anderson Coelho/NDCorreia do motor que gira a pá e mexe a farinha no forno – Anderson Coelho/ND

A articulação da ONG com as famílias produtoras dos seis municípios começou em 2010 e resultou na Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, que busca valorizar e proteger os conhecimentos e práticas dos engenhos no estado. O trabalho com as comunidades também permitiu criar o livro Comida de Engenho, com receitas tradicionais à base de mandioca, e o Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha do Estado, com apoio do Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura de 2017.

“Além de patrimônio cultural, os engenhos são um símbolo de resistência e segurança alimentar nas comunidades em que estão inseridos. Procuramos trabalhar também a questão do turismo, incentivando as visitas aos engenhos, o que pode gerar renda fora das temporadas nas cidades litorâneas”, explica a articuladora da Rede de Engenhos, Ana Carolina Dionísio.

Integrante da Cepagro, Ana Carolina conta que o próximo passo é conquistar a chancela de patrimônio cultural e imaterial para os engenhos. “Entregamos a proposta em maio deste ano para as três esferas governamentais – municipal, estadual e federal, mas sabemos que o processo é longo, pode levar alguns anos”, diz. “Mas o reconhecimento desse bem cultural pode nos dar mais um argumento, na tentativa de flexibilizar a legislação que hoje atrapalha a produção de farinha artesanal e, quem sabe, obter um selo especial para comercialização”.

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