Esquema 138: uma só pessoa concentraria 10% dos táxis de Florianópolis

Taxistas apontam Isaías Gomes dos Santos como controlador de pelo menos 40 táxis, mas ele diz ter apenas um

Rosane Lima

Motoristas de táxi fazem fila perto da oficina de Isaías. Seria para prestar contas ao dono

Ao embarcar no carro 138, você estará trafegando por vias tortuosas de um esquema obscuro de compra e venda ilegal de permissões de táxis na Capital. Contratos de gaveta, sem validade jurídica, colocariam na mão de uma só pessoa pelo menos 40 permissões, ou 10% de toda a frota de táxis de Florianópolis, de 378 veículos. A situação irregular é conhecida da prefeitura, que tem 60 pessoas incumbidas da fiscalização do transporte na cidade, mas que alega não ter provas e se considera sem poder para agir sobre o que os próprios motoristas apelidam de “a máfia dos táxis”.

138 é o número do táxi de Isaías Gomes dos Santos, detentor de uma permissão legal, mas que é apontado como locatário de mais quatro dezenas delas. Em julho do ano passado, o Ministério Público abriu um inquérito civil para apurar denúncias de compra e venda ilegal das concessões. O processo está em fase de apuração. Não é pequeno o número dos permissionários que possuem uma concessão de táxi, mas não a administram. Muitos têm uma segunda profissão. São médicos, advogados, empresários, engenheiros, funcionários públicos que, ao invés de abrirem mão de suas profissões e administrarem ou dirigirem um táxi, preferem arrendar a concessão. Levantamentos apontam que um táxi, em Florianópolis, pode render mais de R$ 10 mil por mês ao permissionário.

A Lei Complementar Municipal 085/2001 diz que o taxista, em posse da concessão, não poderá ceder ou transferir, seja a que título for, a permissão outorgada ou a “Licença de Tráfego” do veículo. No entanto, muitos ignoram as normas.

É como faz a dentista Marlene Bolan Amorin. “Há seis anos, eu arrendo meu táxi para o Isaias. Ele me paga R$ 3,5 mil por mês”, confessa a permissionária. Marlene afirma não ter condições para trabalhar como taxista. Enquanto Marlene atende no seu consultório, em Palhoça, o arrendatário explora comercialmente a placa que foi concedida à mulher, e que deveria ser administrada exclusivamente por ela. Isaías Gomes da Silva, que arrenda a placa de Marlene, teria pelo menos 40 táxis, e um esquema milionário, abastecido pelos taxímetros que rodam ininterruptamente pelas ruas da cidade.

Denúncias são antigas

Nos últimos meses, alguns taxistas decidiram denunciar o esquema de venda de placas na cidade. O Notícias do Dia teve acesso, com exclusividade, a uma lista de 32 placas de táxis. Todas seriam de um único dono, Isaías Gomes dos Santos. Ele é conhecido entre os taxistas como o “marajá do táxi”.

Um dos taxistas ouvidos, que pediu a proteção do anonimato por medo de represálias, contou que Isaias possui diversos táxis na cidade. A denúncia envolve a conivência de órgãos públicos e sindicato. Até uma autoridade estaria ligada ao esquema. “O Isaías tem todos os órgãos de fiscalização na mão. Ele tem pelo menos 40 táxis na cidade”, relata o taxista. “Prefeitura e sindicato sabem de tudo, mas não fazem nada”, denuncia o homem, que tem mais de 15 anos de profissão.

O vice-prefeito João Batista Nunes confirmou que “diversas denúncias já chegaram a Secretaria”, (Secretaria de Transportes, Mobilidade e Terminais, da qual é o titular), órgão responsável pela fiscalização dos táxis. Em janeiro de 2011, quando o Notícias do Dia divulgou a existência do mercado ilegal, João Batista Nunes garantiu que uma sindicância seria aberta, e concessões suspensas. Quatro meses depois da publicação da reportagem, nenhuma permissão foi cassada e ninguém responsabilizado.

Rosane Lima

Carro 138 pertence a Isaías e seria o único do permissionário

“Eu sou apenas um taxista”

Por telefone, Isaías Gomes da Silva negou todas as acusações. “Eu tenho só uma oficina que faz manutenção em táxis e um táxi”, declara. Questionado sobre a recente compra de uma frota de carros, cerca de 50, em uma loja da região, ele argumenta que seria pouco inteligente fazer este tipo de investimento. “Isso seria um investimento de quase de R$ 1 milhão. Se eu tivesse esse dinheiro investiria na construção civil. Em meio ano ganharia meio milhão”, afirma.

Porém, uma loja de automóveis, localizada no bairro Campinas, em São José, confirma que Isaías compra a média de 70 carros por ano.

Isaías ironiza com o fato de alguns taxistas lhe chamarem de milionário. “Eu nem sei ler. Tenho meu táxi e trabalho das 7h às 17h”, argumenta. Nos registros dos imóveis que possui, Isaías se declara como administrador ou como comerciante, nunca como motorista ou dono de táxi.

O patrimônio de Isaías parece maior que ele declara. Ele enfatiza, com certa humildade, que é apenas um taxista, e que dirige seu carro todos os dias para tirar o sustento da família. Em Palhoça, ele possui cinco imóveis em seu nome, todos no condomínio Residencial Pedra Branca.

Nos registros dos imóveis de Palhoça (documento de 2001), constam que Isaías é casado com Tatiana Cristina da Silva dos Santos, que também é proprietária de uma permissão de táxi, mas não dirige nem administra o veículo. O táxi de Tatiana está registrado na prefeitura com o mesmo endereço da oficina de Isaías (rua Dom Pedro I). Por telefone, funcionários da mecânica confirmaram que ela não mora este endereço.

Veja mais informações sobre esta denúncia na edição impressa do Notícias do Dia

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