Vinte anos depois do incêndio no Hospital de Caridade, lições surgem com as cinzas

Reprodução/O Estado/Flavio Tin/ND

Chamas consumiram grande parte da estrutura do hospital; capela ficou intacta

23h de 5 de abril de 1994. Inquieto e bom farejador, o poodle Feroz foi o primeiro a perceber algo errado. Latiu freneticamente até acordar os irmãos Samuel, 37 anos, e Sandro Demétrio dos Santos, 48, ainda donos da oficina mecânica ao pé da ladeira da rua Menino Deus, exatamente ao lado das cancelas de acesso ao atual estacionamento do Imperial Hospital de Caridade.

“Em seguida, ouvi o estrondo de vidros quebrados. Olhei pela janela do quarto e vi o clarão, as chamas já tomavam conta do telhado”, conta Sandro. Imediatamente, o mecânico telefonou para o plantão do Corpo de Bombeiros, que antes de acionar as guarnições de emergência e resgate enviou uma viatura batedora da Polícia Militar para averiguar a gravidade da chamada.

Não era trote. Neste meio tempo, Samuel e Sandro foram os primeiros a subir correndo a ladeira da rua Menino Deus, de pijamas, e logo estavam misturados a médicos, enfermeiros, servidores de outras áreas do hospital e moradores do morro do Mocotó.

Até a chegada dos primeiros caminhões e ambulâncias, foram eles quem se encarregaram do resgate de feridos e internados que não podiam se locomover. Pacientes em melhores condições de saúde corriam pelos corredores à procura da saída, fugindo pelas janelas, alguns carregando os suportes de ferro onde são penduradas bolsas de soro e medicação intravenosa.

O provedor em exercício, Luiz Mário Machado lembra, também, que as dificuldades de acesso das viaturas de resgate pela ladeira estreita de paralelepípedos também atrasou o trabalho dos bombeiros. “Como o conjunto do hospital e entorno são tombados, só agora tivemos autorização para pavimentar um trilho de asfalto”, diz.

Flavio Tin/ND

Os irmãos Sandro (à esq.) e Saulo Demétrio foram os primeiros a perceber algo errado

Heróis esquecidos no Mocotó

Passados 20 anos da tragédia, o provedor Luiz Mário Machado não tem dúvidas: os verdadeiros heróis foram os moradores das redondezas, principalmente do morro do Mocotó e da rua Menino Deus. Salvaram pacientes e os santos da Capela Nosso Senhor Jesus dos Passos. “Se o pessoal do Mocotó não tivesse entrado para carregar nas costas quem não podia correr, teriam morrido mais pessoas. Somos agradecidos até hoje”, garante Machado.

Dos voluntários daquela madrugada, poucos permaneceram no morro, mas entre eles o sentimento que ficou é de dever cumprido e, ao mesmo tempo, decepção por nada ter mudado na relação entre o hospital e a comunidade. “Apenas fizemos a nossa parte. Pena que o agradecimento não se reflete em atendimento à população pobre”, lamenta Arilson Felipe, 45, um dos heróis esquecidos no morro.

A reabertura e a modernização do hospital, segundo Machado, podem ser atribuídas à mobilização da Irmandade Senhor dos Passos, que envolveu todos os setores da cidade e o governo do Estado. “Lamentamos as vítimas, mas, se não fosse aquilo, estaríamos fazendo gambiarras até hoje no prédio ultrapassado”, reconhece.

Pacientes atendidos na ladeira Menino Deus

As calçadas da histórica ladeira Menino Deus pareciam uma praça de guerra, nos dois lados. Macas e leitos hospitalares foram improvisados no meio da rua, jardins, pátios e salas de casas, até a chegada das ambulâncias para transferência dos pacientes para os outros hospitais da cidade.

“Pareciam que estavam jogando gasolina, as labaredas subiam e se espalhavam rápido, e o calor era enorme aqui embaixo. Ainda bem que era uma noite abafada, não tinha vento”, recorda Sandro Demétrio dos Santos. De acordo com o Corpo de Bombeiros, a temperatura ultrapassou a 900ºC.

Além de enfermaria, a oficina dos irmãos Demétrio e casas dos vizinhos serviram também para abrigar as imagens sacras da Capela de Nosso Senhor Jesus dos Passos, única edificação do conjunto intacta depois do incêndio. “Tivemos até de improvisar uma pequena gruta para as pessoas acenderem velas, agradecerem graças e pagarem promessas”, emenda Saulo, 50 anos, o irmão mais velho. Depois de uma semana, as pessoas já estavam fazendo romaria à oficina, atrapalhando a rotina dos mecânicos. “Depois, levaram os santos para o Sesc [Serviço Social do Comércio] e, mais tarde, para a Catedral”, explica.

Divulgação/ND

Vídeo gravado por Adolfinho mostra o momento do incêndio no Caridade

Ídolo do Avaí, ex-goleiro Adolfinho filma a tragédia da janela de casa

Na ampla sala da direção do Hospital de Caridade, no terceiro andar, um dos provedores, Luiz Mário Machado, guarda como relíquia o presente deixado por um paciente ilustre: Adolfo Martins Camilli, o Adolfinho, ex-goleiro do Avaí, que morreu na madrugada de 9 de março de 2011, aos 85 anos, com problemas renais. 

O DVD contém cópia de imagens inéditas em preto e branco, feitas em VHF pelo próprio Adolfinho e pela mulher Zilda Cidade. Da janela do apartamento onde morava, no oitavo andar do edifício Andréa, no “paredão” da avenida Hercílio Luz, o casal filmou as labaredas de até cinco metros de altura e o trágico clarão sobre a cidade.

Eles perceberam a gravidade do incêndio e começaram a gravar por volta de 1h10 da madrugada de 6 de abril de 1994. A cerca de dois quilômetros de distância e ainda não encoberto pelos prédios construídos depois, o apartamento de Adolfinho estava localizado praticamente defronte ao hospital em chamas.

De lá, o ex-goleiro avaiano e a mulher testemunharam o esforço dos bombeiros e a correria desesperada de funcionários e voluntários para salvar pacientes internados e imagens sacras da Capela de Nosso Senhor Jesus dos Passos, o padroeiro do hospital.

Doentes e santos foram carregados para o pé da ladeira, onde permaneceram perfilados nas calçadas ou foram atendidos com urgência nas casas dos moradores da rua Menino Deus. O fogo atingiu o madeiramento do telhado, se alastrou rapidamente por todas as alas e poupou apenas o entorno e o interior da capela. “Foi milagre do Senhor dos Passos”, ressalta Machado.

Toras e caibros incendiados despencam incandescentes, portas e janelas de vidro estouram, enquanto o som de sirenes, ao longe, é abafado pela conversa pausada de Adolfinho e Zilda. Emocionado, o casal narra e comenta o avanço das labaredas, cita cada uma das alas destruídas e constata que a única edificação poupada foi a pequena capela. “O forro despencou, mas o madeiramento ficou a 30 centímetros da cabeça do santo”, confirma Machado.

Internado com pneumonia, delegado ajuda no resgate

O delegado aposentado Maurício Noronha, 60 anos, estava internado no quarto 379 da ala Irmão Joaquim, tratando de uma pneumonia, quando ouviu a gritaria. Acostumado a ocorrências policiais, o delegado comentou para a companheira, Valdívia: “Poxa, nem no hospital os bandidos respeitam”.

Quando abriu a porta para ver o que estava acontecendo, o quarto foi invadido por uma cortina de fumaça. “Não dava para respirar”, lembra.

O desespero era geral. Pacientes que podiam se levantar saíram dos quartos, correram para os corredores e seguiram para a rua. “Um casal entrou desesperado no quarto onde eu estava internado, no segundo andar, e tentou se jogar pela janela. Tirei a agulha do soro, espetada na minha veia, amarrei um lenço para evitar sangramento e contive o casal. Tranquei a porta”, conta.

Noronha, que na época era diretor da Deic (Diretoria Estadual de Investigações Criminais), lembra que os bombeiros estenderam uma escada na janela do quarto: “Primeiro, ajudei minha mulher a descer. Depois, o casal. Fui o último a descer”. Do pátio  da emergência, o delegado observou a ala São Camilo, ao norte da Capela Nosso Senhor Jesus dos Passos, em chamas.

As labaredas estavam altas, e logo em seguida, chegaram caminhões do Corpo de Bombeiros. “Mas a água não saía da mangueira, só pingava. Se não fosse a coragem dos moradores do morro do Mocotó, derrubando portas internas a chutes para salvar pacientes velhinhos, a tragédia seria muito maior”, confirma. 

Noronha recorda que os pacientes eram carregados no colo e colocados no gramado ao lado do hospital. O delegado ficou cerca de 20 minutos em frente ao hospital, ajudando as pessoas, até um policial amigo dele levá-lo para casa. “Liguei para o doutor João Batista Bonassis, meu médico na época, e ele me encaminhou para a ala nova de pneumologia recém inaugurada no Hospital Nereu Ramos”, diz.

Causas nunca foram esclarecidas

Curto circuito na rede elétrica ultrapassada, ou bagana de cigarro acesa na sala do grêmio recreativo dos funcionários?  As verdadeiras causas até hoje são desconhecidas, mas o fogo que começou por volta das 22h30 no segundo andar, na então desativada ala São Camilo, se alastrou ainda imperceptível pelo depósito de materiais – papel, papelão e plástico, medicamentos inflamáveis e botijão de gás – e tecidos da sala de costura, assoalhos e forros de madeira. Uma hora depois, quando já atingiam o madeiramento do telhado, as chamas eram incontroláveis.

Médicos, enfermeiros, pacientes e moradores do Mocotó fizeram o primeiro combate ao fogo, mas a ala Senhor dos Passos logo foi atingida. Intenso, o fogo continuou se alastrando mesmo depois da chegada dos bombeiros, que pareciam impotentes diante da escassez de recursos. Sem pressão, o hidrante não funcionou, o carro bomba logo esvaziou a carga d’água, não havia escada Magirus e o caminhão guindaste demorou até manobrar entre a capela e a ala Coração de Jesus.

Com reforço dos destacamentos de Itajaí, Tubarão, Brusque e Blumenau, 90 bombeiros trabalharam naquela madrugada, com 14 viaturas especiais. Foram utilizados 330 mil litros de água. No rescaldo foi constatado que a base de madeira da estrutura antiga facilitou a propagação das chamas. Ficaram destruídos consultórios, emergência, laboratórios, UTI, unidade coronariana, centro cirúrgico, alas da cardiologia, centro pós-operatório, hemodinâmica, mobiliário, equipamentos e documentos.

Emocionadas, funcionárias choram

Enfermeira na época, a secretária administrativa da direção, Rita Peruchi, 56 anos, soube do incêndio por acaso. Ela conta que morava na rua Vidal Ramos e naquele dia estava gripada, mas decidiu trabalhar assim mesmo. Quando saiu do elevador, o porteiro lhe disse que o hospital estava destruído pelo fogo.

Incrédula, Rita caminhou até a praça 15 de Novembro e, enquanto caminhava pela rua Tiradentes, a imagem do prédio em ruínas se descortinava a sua frente. “Parecia uma névoa em volta do prédio. Eu segui em frente, tentando ver a ala Senhor dos Passos, onde trabalhava, mas estava tudo abaixo. Foi muito triste”, resume.

Contemporânea dela, a funcionária administrativa Nadir Albertina Garcia Felisbino, 54, chora ao se lembrar daquele dia. “Minha mãe ouviu a notícia no rádio, pela manhã, e me acordou para avisar. “Só conseguimos entrar dois dias depois. É uma lembrança muito triste, uma sensação ruim, um sentimento que não dá para descrever”, diz.

Na linha de frente, soldado confirma despreparo

Soldado paramédico do ASU (Auto Socorro de Urgência) na época do incêndio, o 2º sargento Edi Maurecy da Rocha, 49 anos, também meteu a mão na mangueira e foi um dos combatentes da linha de frente do Corpo de Bombeiros. Mais experiente, ele não tem dúvidas que a atuação da tropa seria bem mais eficiente se a tragédia fosse hoje.

“O treinamento foi aperfeiçoado, aprendemos novas técnicas de combate ao fogo e de resgate de vítimas”, argumenta. O sargento ressalta, também, que neste período, o Corpo de Bombeiros adquiriu equipamentos modernos e mais eficazes para situações semelhantes.

Sargento Edi se recorda de pelo menos três situações que interferiram negativamente no atendimento à ocorrência: o difícil acesso ao alto da ladeira Menino Deus, por causa da pavimentação com paralelepípedos e excesso de carros de curiosos estacionados na via; falta de equipamentos adequados à situação; e o não funcionamento do hidrante, aliado ao desconhecimento da existência de uma cisterna nos fundos do hospital. “Na pressa, ninguém se lembrou, mas a cisterna ajudaria nosso trabalho”, diz, e faz questão de ressaltar a colaboração dos moradores do Mocotó: “Foram essenciais, arriscaram a vida e salvaram muitos pacientes”.

De acordo com dados oficiais, sete pessoas morreram carbonizadas e duas desapareceram, saldo que ainda hoje causa estranheza no sargento. “Lembro que pelo menos 15 cadáveres carbonizados. Creio que morreu mais gente”, diz.

Depois do rescaldo, novo comando nos bombeiros

Hoje na reserva, o coronel Silvestre Olegário do Santos, que assumiu o comando do Corpo de Bombeiros duas semanas depois do incêndio por imposição do então comandante da Polícia Militar, coronel Jurandir Hostins, conta que, de imediato, foram para o local as guarnições dos batalhões do Centro e do Estreito. “Foram cinco caminhões auto bombas tanques e 20 homens. Os bombeiros fizeram o que foi possível, não deixando o fogo se alastrar para outras alas”, diz.

Santos explicou que não havia água no hidrante, e que a responsabilidade seria do próprio hospital. “Mas quem iria adivinhar que ocorreria um incêndio daquelas proporções?”, questiona. Ele lembra que a fiação elétrica do hospital era antiga.

Duas décadas depois, ele afirma que foi um erro do coronel Hostins destituir o comandante dos bombeiros, Bruno Marcos Kleys – naquela época o Corpo de Bombeiros era subordinado à PM. Kleys era especializado no combate a incêndios, fez diversos cursos. “Eu era corregedor e assumi o comando sem conhecimento técnico algum”, admite Santos.

Na época, se discutiu que havia necessidade de o Corpo de Bombeiros ser melhor equipado. “O governo disponibilizou uma fortuna para comprar equipamentos, mas mandei devolver tudo, porque estavam ultrapassados. Denunciei o caso ao secretário da Segurança Pública, o também coronel Sidney Pacheco, que concordou com a devolução”, conta. (Colombo de Souza)

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