Visitante acidental

Foi uma aventura digna de Jacques Cousteau.

Desde cedo, antes que alguém tivesse acordado, já dava para ouvir o pardal se batendo no vidro da claraboia, sem compreender como não lograva transpor aquele obstáculo se tudo parecia claro, nítido, transparente e seria possível, a um voo, alcançar os postes, os fios, as antenas de TV, as árvores, o céu infinito.

Era preciso tirar dali aquele simpático – e incômodo – visitante, que não parava de se debater, cada vez mais cansado e, agora, assustado com os humanos que deixavam os quartos, buliçosos e cheios de dores nas juntas. O jeito foi improvisar uma escada e uma vassoura para fazer descer ao nível das portas e janelas aquele ser acintosamente impedido de retornar ao seu habitat natural.

Ninguém entendeu como ele foi parar ali, se as aberturas haviam sido hermeticamente vedadas na noite anterior por causa das baratas que voam ou se esgueiram pelas paredes. Só pode ter entrado pela basculante do banheiro, opinou alguém. O fato é que o bichinho estava ali e ali não podia permanecer, para o próprio bem e o dos moradores agastados com aquela situação.

O que seu viu dali para frente foi uma sucessão de tentativas frustradas de devolver a avezinha para o seu mundo sem impedimentos. Frustradas e bisonhas, diga-se, a bem da verdade. O passarinho descia, mas voltava ao ponto de partida, ou grudava na parede, desesperado, como se estivesse sendo caçado por um bando de monstros insensíveis. Até que se amotinou atrás de uma caixa de som e dali só saiu quando a impaciência alheia o enxotou, ainda na faina de fazê-lo voltar à natureza.

Ele retornou à claraboia, foi instado a descer, escondeu-se embaixo de uma estante e muito tempo depois é que subiu para o quarto de cima, acuado como nunca. Enfim, após mais algumas estocadas, ficou atrás de uma cortina, e dali para a janela salvadora foi um tapa. Estava livre, enfim, o nosso inquilino acidental…

Depois disso, quase por intuição, pássaros de todos os tipos e tamanhos passaram a ser observados com redobrada atenção. Pássaros que lembravam Hitchcock, inquietos nas tardinhas de chuva, canoros de acordo com a espécie e variedade, fartos por conta da vastidão de mata do entorno.

E nem Borges, nem Clarisse Lispector, nem Evaristo Carriego – nenhuma das leituras posteriores pareceu tão empolgante quanto seguir aqueles vizinhos desinteressados que nos brindavam com sua graça e com uma autoridade de fazer inveja aos bípedes pensantes com costelas doloridas e todos os sintomas da osteoporose.

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