Vítimas de abusos de guia espiritual contam detalhes das sessões

Atualizado

Vítimas relataram detalhes das sessões com o guia espiritual que teve a prisão preventiva decretada pelos crimes de violência sexual mediante fraude. O pedido de prisão foi aceito pelo TJ-SC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina) nesta terça-feira (15). Até então, seis vítimas haviam registrado boletins de ocorrência na polícia contra o guia.

Os crimes ocorreram no bairro Fundos, em Biguaçu, na Grande Florianópolis. Em média 15 pessoas por dia costumavam frequentar a casa do guia em busca de ajuda. O agendamento para a sessão era feito através de indicação por mensagem de celular.

Foi dessa forma que uma mulher, que preferiu não se identificar, teve o primeiro contato com o guia espiritual que atende há cerca de três anos. Pelo tempo, a polícia acredita que o número de vítimas seja ainda maior.

“Eu estava em um momento difícil da minha vida e ele disse que eu precisava procurar por ele na residência. Me passou o endereço, tudo certinho e eu acabei procurando”, contou uma das vítimas em entrevista à reportagem da RICTV.

O abuso, segunda ela, ocorreu logo na primeira sessão. “No primeiro momento, eu já senti o abuso dele, tocando nas minhas nádegas, nos meus seios, mas como eu estava em transe, você acaba aceitando”, relatou a vítima.

A mulher comparou a sessão com o guia a uma consulta médica, em que o profissional precisa examinar o paciente.

Os abusos aconteciam dentro de um pequeno quarto, onde o ritual se repetia a cada novo encontro, em um momento chamado de limpeza dos chacras.

“Eu sentava de frente em uma cadeira, e ele ia me tocando. É como se ele tivesse que tocar os chacras, mas ele tocava em tudo. Essa era a verdade. Ele era abusivo demais”, conta.

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Presença do marido

Os abusos à vítima chegaram a ocorrer na presença do marido dela, que permanecia de olhos fechados e rezando durante toda a sessão. A mulher sofreu abuso até mesmo dentro da própria casa.

“Um dia ele foi à minha casa ‘fazer uma limpeza’ e desceu as minhas calças. Pedia ao meu marido para pegar coisas. Meu marido me via com as calças descidas, mas ele acreditava porque nós estávamos precisando muito daquilo”, disse ela.

A mulher relatou algumas ações cometidas pelo guia espiritual em uma das sessões na casa dela. Segundo a vítima, o guia beijou sua nuca e passou as mãos em seus seios. Para ela, o “basta” veio quando o guia a beijou três vezes na boca na presença do marido.

Mais vítimas

Outra mulher, que também preferiu não se identificar, relata que sofreu abusos durante a limpeza dos chacras, dentro do quarto onde as sessões eram realizadas.

“Toda vez que eu entrava naquele quarto, ele usava ervas. Algumas vezes, me pediu para ir com roupas estilo vestido, para poder fazer melhor a limpeza. Sempre que eu entrava em transe, eu sentia ele tocando meus seios”, conta.

Fragilizada e sem nunca ter frequentado um local como aquele, ela acreditava ser um procedimento normal. A vítima relata que, muitas vezes, chegava às sessões debilitada e mal de saúde e ouvia do guia que o motivo era espiritual. Ele dizia, ainda, que espíritos a acompanhavam e que a limpeza era necessária para purificá-la. Os toques e o uso das ervas faziam parte do ritual.

Mensagens pelo celular

O contato do guia espiritual não se restringia às sessões. Ele mandava, ainda, mensagens com conteúdo abusivo ao celular das vítimas. Uma delas relata que, ao final dos diálogos, apagava boa parte dos registros obedecendo a um pedido do próprio guia. De acordo com ela, o guia se tornava uma espécie de “dono” das clientes.

“Eu comecei a contar todo o meu dia para ele. Qualquer sensação ou estresse, em qualquer momento, eu contava a ele por mensagem. Mas, no final, ele sempre pedia para apagar”, conta a vítima.

Desconhecimento e fragilidade

A Polícia Civil abriu um inquérito para apurar o crime. A investigação constatou que o guia costumava agir da mesma forma: se aproveitava da fragilidade das mulheres e do desconhecimento delas sobre o ritual com o objetivo de praticar os atos abusivos.

A delegada Marcela França Goto, da Polícia Civil da Comarca de Biguaçu, explica que logo que colheu os primeiros depoimentos das vítimas, pediu a prisão preventiva do guia espiritual.

Para a delegada responsável pelo caso, vítimas estavam fragilizadas – Foto: RICTV/Reprodução/ND

“O momento do ritual espiritual é encarado como violação sexual mediante fraude, que é o crime ao qual ele responde. As vítimas estavam fragilizadas e não conseguiam perceber que ele estava se aproveitando delas”, diz a delegada.

O desejo, segundo uma das vítimas, é que o guia espiritual seja impedido de continuar a cometer os crimes. “Está causando muita dor e sofrimento, já tentei me matar três vezes. Penso que compactuei com o assédio”, lamenta.

Uma das vítimas chegou a perder entre seis e sete mil reais para o guia espiritual. Ele dizia que estava passando por dificuldades e possuía dívidas, pedindo dinheiro emprestado às frequentadoras dos rituais.

“Eu doava para ele por pena e dizia que quando ele pudesse, me pagava. As vezes eu dizia que ele não precisava pagar. Ele conseguiu arrancar bastante dinheiro de mim”, conta a vítima.

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