A destruição do museu

O ‘príncipe dos sociólogos’, Fernando Henrique Cardoso governou o Brasil de 1995 a 2002. Um semi deus para a maioria dos intelectuais e o próprio para a quase totalidade do ‘povo da cultura e das artes’. Luiz Inácio ocupou o comando do Executivo nos oito anos seguintes e guindou os postes Dilma e Temer para a chefia da República até 31 de dezembro do corrente ano da graça do Senhor. FHC, Lula e Dilma se encontravam imersos em densa nuvem de incenso, de perfume intenso, que se originavam dos sem número de turíbulos, sobretudo os empunhados pelos aquinhoados com suculentas fatias das arcas fornidas pela lei Rouanet.

Como partícipe da I Conferência Nacional de Cultura, percebi que o perfume intenso não era de agradável odor. E ninguém pode me acusar de omissão. Foram intensos e precisos confrontos, que não muito agradaram o establishment cultural tupiniquim, em especial os discípulos missionários de Marx, Antonio Gramsci – o mentor dos ativistas acadêmicos em busca de um “novo senso comum” – e outros menos cotados. Pergunto às legiões de turiferários: como a Instituição fundada por Dom João VI, em 1818, que possuía o quinto maior acervo do mundo, com mais de 20 milhões de peças, não possuía qualquer salvaguarda que evitasse sua repentina destruição, com todos os recursos e tecnologias de prevenção e combate aos incêndios existentes no tempo presente?

Suas obras contavam uma parte importante da história antropológica e científica da humanidade. Talvez o exemplo mais emblemático seja o fóssil com mais de 11 mil anos de Luzia, a mulher mais antiga das Américas, cuja descoberta nos anos 1970 reorientou todas as pesquisas sobre a ocupação da região. Ali também estava a reconstrução do esqueleto do Angaturama Limai, o maior dinossauro carnívoro brasileiro, com quase todas as peças originais, algumas com 110 milhões de anos. O sarcófago da sacerdotisa Sha-amun-en-su, mumificada há 2.700 anos e presenteada a Dom Pedro II em 1876, nunca tinha sido aberto. A coleção de múmias egípcias e a de vasos gregos e etruscos evidenciam o perfil transfronteiriço do acervo. Sim, Temer, “um dia trágico para o Brasil”, pois dois séculos de trabalho, pesquisa e conhecimento foram reduzidos a pó. E o pior, óh principe dos sociólogos, e óh ‘divindade encarnada’ e seus postes Dilma e Temer: uma tragédia anunciada.

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