Bodes reformistas

A metáfora do bode na sala, antiga parábola chinesa, funciona assim: um sujeito reclama que sua vida em casa estava um inferno, na mesa faltava comida, todos ali discutiam e todos queriam ter razão. Um amigo sugeriu ao sujeito que colocasse um bode na sala.

Mesmo estranhando, seguiu seu conselho e a reação foi imediata. O bode, além de sujar o local, ainda exalava um cheiro terrível – ou seja, a situação ficou pior ainda. Devido a isso o bode foi retirado e os ânimos na casa nunca estiveram tão bons. O bode causou tanto transtorno que se esqueceram dos outros problemas que tinham.

Não é à toa que nossa classe política é useira e vezeira dessa artimanha, no intuito de desviar as atenções. Por mais que não queiramos admitir isso, as reformas estruturantes, absolutamente vitais para que o Brasil consiga voltar aos trilhos do crescimento socioeconômico sustentável, nada mais têm sido do que um conveniente bode colocado na sala das casas e empresas dos brasileiros por sucessivos governos desde a redemocratização.

Os fatos, infelizmente, corroboram essa realidade: alguém por acaso viu, leu ou analisou a proposta de reforma tributária do atual governo federal? Com certeza não, porque até o momento ela não foi apresentada, nem sequer emendas às propostas que já tramitam no Senado e na Câmara.

Idem para a reforma administrativa, fundamental para corrigir as gravíssimas distorções existentes entre os trabalhadores dos setores público e privado.

Fato é que desde outubro de 2019 – ou seja, muito antes do novo coronavírus tomar as atenções do mundo – não se vê mais nenhum avanço reformista no Brasil, e é ingênuo acreditar que bastaria a aprovação da reforma previdenciária para que entrássemos no nirvana do desenvolvimento.

Falta vontade genuína, por parte dos governos, para que essas agendas efetivamente ganhem a musculatura necessária para modernizar os alicerces do Estado, sobretudo agora, em que as sequelas econômicas das medidas sanitárias de restrição da atividade já batem à porta e, tal qual o bode da parábola, querem se alojar na sala à nossa revelia.

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