Democracia em casa

Em tempos de pandemia, tem-se constatado que o trabalho doméstico realizado pelas mulheres não diminuiu, pelo contrário, a carga de trabalho só tende a aumentar. O serviço presencial de ensino às crianças, incluindo creches em tempo integral ou parcial, simplesmente se inviabilizaram com a imposição do distanciamento social, indispensável para um mundo em guerra contra a Covid-19.

A situação é ainda mais grave no caso das mulheres que, em meio às restrições impostas pela pandemia, somam às atividades do trabalho doméstico as do trabalho remunerado.

Tudo isto nos faz pensar na atualidade da proposta de remuneração do trabalho doméstico “invisibilizado”, defendida pela filósofa Sílvia Federici desde a década de 1970. Seu objetivo era a independência econômica da mulher, com a consequência direta na educação igualitária dentro de casa, pois o trabalho doméstico não poderia ser considerado – como sempre foi – um atributo natural à mulher.

Para esclarecer do que se está falando, é importante lembrar que o trabalho doméstico inclui as atividades diárias que sustentam nossas vidas, como a preparação de alimentos, a limpeza da casa e a lavanderia, além dos cuidados pessoais, especialmente com as crianças, os idosos, as pessoas enfermas e as que têm uma deficiência.

A desvalorização do trabalho doméstico, como verdadeiro fator de opressão às mulheres, não só agrava a desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho, em contrariedade à Convenção n° 156, da OIT, mas também desampara a mulher ante a violência causada por homens agressores.

No contexto da pandemia, que obriga a maior convivência ininterrupta da família dentro de casa, já é de conhecimento público o aumento em 50% no número das denúncias de violência contra a mulher no Brasil, conforme cartilha da Fiocruz intitulada “Violência Doméstica e Familiar na Covid-19”.

O trabalho doméstico não valorizado e a violência doméstica contra a mulher são problemas de toda a sociedade, que deve se conscientizar da necessidade de mudança nos papéis sociais desempenhados por homens e mulheres, porque “a democracia em um país necessariamente deve passar pela democracia dentro de casa”.

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