Desorganização oportunista

Como médico, penso que é assustador o momento pelo qual estamos passando. Não apenas pela pandemia, mas pelo excesso de informação (nem sempre com os dados mais importantes) que se transforma em desinformação. Toda a estrutura biopsíquica sobre a qual nos alicerçamos está ameaçada.

A relação que se estabelece com nova entidade biológica, a se acomodar no tempo por via dos meios naturais, ou pela intervenção cognitiva humana, assume uma proporção brutalmente hipertrofiada, por via da desorganização oportunisticamente manipulada. Não conhecemos o que realmente está acontecendo, nem em nosso município. Não há dados operacionais devidamente embasados. Com isso, a história natural da epidemia está sendo ignorada, impulsionada por determinantes, o mais das vezes, demagógicos.

Qual a realidade sanitária que o divulgado traduz à sociedade? Esse é um foco crucial. A desinformação não só está sendo permitida como as ações desenvolvidas ocorrem num ambiente de absoluta incerteza. Nas unidades de saúde, emergências e consultórios, onde nascem os diagnósticos, os dados chegam sem a menor uniformidade de critérios, multiplicando dúvidas. Qual o encaminhamento real dos casos suspeitos ou confirmados? Qual o critério de seguimento ativo, nos casos indicados? Qual a realidade intra-unidade de saúde, da evolução desde a observação à internação em área específica?

O ambiente, agora geral e pandêmico, é de total disfunção cognitiva, com destruição do nosso maior capital como civilização, que é obter sabedoria. Em todas as áreas do conhecimento humano, com características muito próprias e fundamentais, o saber é crucial ao desempenho médico. Assim, o meio, subsidiário e riquíssimo, desaba quando pretende substituir o conhecimento profundo.

Enquanto isso, divulgam-se números desarticulados do fundamento e, o que pode ser positivo no contexto verdadeiro de saúde pública e atendimento médico, apenas alardeia gravidades e gera ansiedades. Penso que o foco constante, repetitivo, nessa busca e, agora sim operacionalizando e comunicando, deve ser nossa função mais necessária e imediata.

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