Dr. Mário, a indelével presença

É sempre bom lembrar a história do lugar e das personagens indeléveis que fazem parte dessa história, configurando o patrimônio cultural da nossa gente. Jorge Luis Borges, em Ensaio: O Tempo, afirma “o presente contém sempre uma partícula do passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo”. A biografia singular de Mário José Gonzaga Petrelli espelha muito bem a afirmativa de Borges.

Pouco convivi com o Dr Mário. Todavia quando o encontrava era uma delícia ouvi-lo.  Alegre, prestativo, atencioso e elegante.  Enriquecia-me com a sua erudição, inteligência, com a memória política e cultural prodigiosa e um saboroso senso de humor. Um excepcional contador de histórias, desfiando com minúcias o causo, os protagonistas, o cenário, a época. Discorria sobre fatos políticos e econômicos de Santa Catarina, como ninguém…

Sempre à frente de seu tempo. Sobretudo, quando o assunto era inovar, enfrentar os desafios ante os novos paradigmas estabelecidos, com lealdade à ética na difusão do conhecimento, da cultura e aos códigos deontológicos que regem a comunicação social, sem hipotecar à autonomia, a independência, a liberdade de imprensa.

Dr Mário era meu amigo.  Afirmo sem pestanejar. Aliás, isso não deve surpreender. Uma capacidade invulgar de fazer amigos. Um ser humano admirável! Fazia questão de prestigiar os lançamentos literários que valorizavam e registravam a memória cultural e histórica da nossa gente e da nossa terra. Tinha sempre uma palavra pronta de reconhecimento e louvor ao trabalho de alguém.

Missivista contumaz, seus e-mails constituíam um manancial de pródiga informação da cultura e da história dos catarinenses perpassadas com simplicidade, a partir de suas mundividências, como forma de contribuir para salvaguardar a memória coletiva. Escrevia ou respondia com prazer os e-mails de seus amigos ou amigos virtuais como eu. Nasceu daí uma amizade “emailada” coroada de generosidade e partilha de sabedoria.

Recordo um artigo sobre a Festa do Divino Espírito Santo da IDES de 1916. Comentei, num e-mail, a foto do menino imperador Aderbal Ramos da Silva, destacando seu olhar resoluto. Dr Mario respondeu-me citando as qualidades do  líder político e do homem de alma grande. Contou que, quando governador do Estado, Dr Aderbal  prometeu ao povo de Florianópolis dar o que mais faltava – água, luz e leite.  Homem resoluto. Palavra dada, palavra cumprida.

Certa feita, contei-lhe da palestra que daria no IHG de Lages: “Patrimônio Cultural da Serra Catarinense”. Sua contribuição não tardou: “Lages a terra de Nereu e que deu o primeiro Governador de Santa Catarina, e depois Abdon, Vidal, Aristiliano, Celso, Aderbal (nascido no Palácio em Florianópolis, mas filho de lageana) e agora por último o Raimundo. Lages e Itajaí juntas deram 11 Governadores a Santa Catarina.” (maio/2014).

Por ultimo, uma reminiscência dos tempos do Colégio Catarinense e do seu diretor Padre Rohr,  ao ler  o artigo Laelia Purpurata,  a rainha das orquídeas do Brasil  – “parabéns, me faz lembrar o Padre Rohr, um dos pioneiros da busca das orquídeas da nossa Ilha,  (set.2019). Lições para serem lembradas ou guardadas na memória, afinal… Dr Mário, “a indelével presença”!

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