E a correria?

Caímos na armadilha da pressa, do estar ocupadíssimos, resolvendo problemas, pois sem isto tudo entraria numa desordem irremediável. Os adeptos da “correria” supervalorizam o estresse, e para eles calma é um quase-sinônimo para morte.

Se não estamos no meio do barulho, na angústia do prazo, na insônia, na comida engolida às pressas, aos olhos alheios não somos um sucesso. E se não passamos a semana programando o lazer certamente teremos um final de semana perdido. É preciso aproveitar cada minuto, ainda que isto signifique apenas mais cansaço, mais atividades externas e mais exposição inútil.

Mas… e nosso ritmo como fica? O que o corpo pede, a mente exige e a alma clama, em que momento desprezamos em nome do chamado urgente da celeridade?

Carl Honoré publicou, em 2004, “In praise of slow”, que no Brasil recebeu o título “Devagar”. Na obra ele fala de um movimento mundial que desafia o culto da velocidade, enfocando “Slow Food”, “Slow Cities” e “Slow Sex”, aliando-os à maior qualidade de vida.

Meditar, dizem, é “estar fazendo o que se está fazendo”. Parece simples, mas há quanto tempo não sentamos para simplesmente almoçar, longe do celular, usufruindo do aroma, das texturas e do paladar da comida?

Significativo que um dos sintomas da Covid-19 seja a perda de paladar e olfato, dois sentidos que nos protegem desde tempos imemoriais de consumir alimentos estragados e, mais profundamente, aproxima ou repele possíveis parcerias amorosas. Pouco os estávamos desfrutando neste processo inconsciente de aceleração contínua.

Quanto ao planeta, segue girando sem nossa nervosa atenção. E continuará sua trajetória depois de nós. Entretanto, não é preciso apressar a partida. Aliás, podemos “desantecipar” o biológico desenlace, simplesmente desacelerando.

Estamos em momento raro da existência, obrigados ao isolamento social e com tempo suficiente para redescoberta de pequenos e grandes prazeres.

Quem estava desconectado de si mesmo talvez tenha levado um susto ao se ver compelido a um mergulho interior, a entrar em contato com suas luzes e sombras, com saudades esquecidas e dores varridas para baixo do tapete.

Que excepcional oportunidade de reconhecimento pessoal e de reencontro com o que realmente faz feliz. Duvido que o caminho para este resgate seja o da “correria”.

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