E lá vem o Estado

Um dos papeis da filosofia é analisar discursos, questionar coisas e pessoas, balançar a árvore dos palavrórios oficiais para ver o que cai de lá. Exercendo então o meu papel, venho questionando diariamente as gestões duvidosas da pandemia pelos estados.

Geralmente alguns me dizem que um filósofo deveria se atentar ao seu cantinho, e não misturar opiniões com ciência. Estados falando em nome da ciência em um momento que até a ciência parece ter somente opiniões? Interessante. Segundo Lula ― façam aqui uma genuflexão ―, todos verão o quanto o Estado é um deus indispensável neste momento mórbido; e entre as novas funções da gestão pública, parece estar a de falar em nome da ciência (ouvi um glória?).

Os governadores assumem posturas eretas ― quase sacras ― em seus palanques, declamam solenemente: “estamos falando de ciência”; após dito isso tudo ao redor se desfaz, as opiniões se vertem em obediências, as dúvidas tornam-se meras teorias conspiratórias, qualquer contestação acaba logo acalentada na fogueira da santa ciência.

O problema é que, olhando cá de cima, tal como uma coruja pensativa, me parece que nem a ciência está muito entusiasmada para levantar orgulhosamente o seu peito de pombo neste momento; muito menos para fazer de suas evidências prévias, dogmas empavonados.

E é aqui que a filosofia entra novamente: geralmente é o filósofo que diz o que ninguém quer dizer, então vamos lá: ainda não sabemos quase nada sobre esse vírus, nem qual é o tratamento 100% correto a ser ministrado.

Estamos tateando soluções avulsas, pelejando encontrar uma resposta milagrosa tal como um náufrago no escuro tenta encontrar um bote que o salve. Nessas situações, usar o aparato estatal para impor medidas “cientificamente embasada”, em detrimento de outras ― também “cientificamente embasadas” ―, não passa de opiniões quase que ideológicas.

Não podemos nos dar o luxo de dispensar tratamentos que previamente deram bons resultados. A liberdade para que médicos, in loco, usem os protocolos e medicamentos que mais alcançam sucesso ― ao invés daqueles que os estados julgam dar certo ― é essencial.

Aos estados cabem dar os meios necessários para que os profissionais de saúde desempenhem seus conhecimentos e práticas de uma forma livre, capaz e sensata. E, por enquanto, é só. O Estado sempre fará muito quando não atrapalhar.

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