Três minutos de silêncio (e uma esperança)

Mais três funerais de jovens. Muito jovens. Sinto tristeza e dor. Mesmo imensuráveis, não podem se comparar com a tristeza e a dor das três mães que acabam de perder seus filhos. Eu as conheço. E conheço bem a rocha da qual são feitas essas mulheres, trabalhadoras, a maioria negras, do Morro do Mocotó e de todos os morros e comunidades dessa cidade.

Essas mães que vivem sob o temor do destino dos seus filhos, temor pela presença ou recurso que podem faltar. “O que eu não consegui dar?”, “Porque uma morte horrível dessas, padre?”, são as perguntas que mais ouvi nesses 40 anos vivendo no maciço do Morro da Cruz, enquanto fazia os sepultamentos de quase todos os jovens mortos. Um número enorme, que não se conta.

Por que uma cidade que quer ser contemporânea, referência em tecnologia e qualidade de vida, repete os piores modelos quando falamos da parte mais pobre? Uma parte enorme e crescente.

Os melhores modelos usam todos os recursos possíveis para proteger e desenvolver sua juventude. O primeiro trabalho das forças policiais, incansável, obsessivo, precisa ser evitar a morte a todo custo. A farda deveria representar os que guardam a vida de todos, independente de ficha criminal, ou de uma suposta ligação com o tráfico.

Muitas madrugadas fui ao encontro desses jovens nos pontos do tráfico, dezenas deles que no dia, na semana, no mês ou no ano seguinte me procuraram para dizer que queriam a chance. A grande maioria a agarrou e segue agarrando com êxito. Sinto culpa pelos que perderam a vida violentamente, por essa chance não os ter encontrado.

Transformemos essa dor em renascimento. Vamos cobrar justiça, segurança, direitos, serviços públicos, infraestrutura de quem tem a obrigação constitucional de oferecê-los com equidade. Hoje recebi o convite para participar de uma conversa virtual com um grupo de jovens do Mocotó. Eles traziam uma carta endereçada às autoridades e uma vontade grande de fazer um movimento em defesa da vida e da comunidade. Meu coração se encheu de esperança.

Mais Opiniões Artigos

Artigo

Em 24 de maio de 2016 Roberto Caldart foi morto enquanto atendia clientes, vítimas de fraudulenta reintegração de […]

Artigo

A Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) completa 70 anos neste dia 25 de maio. Em sete […]

Artigo

Depois de mais de 60 dias de quarentena, as consequências da crise ampliada pelo coronavírus ganharam dimensões preocupantes […]

Artigo

Baltasar Gracián escreveu em 1647 a Arte da Prudência, dedicada à astúcia da razão, apresentando em aforismos normas […]

Artigo

A metáfora do bode na sala, antiga parábola chinesa, funciona assim: um sujeito reclama que sua vida em […]

Artigo

Ultimamente,  temos constatado que muitos dos núcleos familiares não se conhecem, ou não se reconhecem mais, pela ausência […]

Artigo

Num depoimento que eu gravei há uns três anos atrás com o pintor Rodrigo, ele me revelou que […]