Vacinação e a cultura do “jeitinho”

A vacinação contra a Covid-19 se inicia no Brasil contrastando a esperança com a incerteza de quando estará à disposição de todos os brasileiros e brasileiras. Alta demanda, oferta escassa, e estamos novamente reféns da implacável lógica do mercado global.

Segundo dados do site “Our World in Data”, países como Estados Unidos da América e Reino Unido já vacinaram, respectivamente, 9,4% e 13,95% da sua população, ao passo que o Brasil conseguiu levar a primeira dose das vacinas para apenas 0,98% dos brasileiros.

Neste cenário, é essencial que a imunização seja conduzida de forma estratégica, com a adoção de critérios sanitários de priorização que sejam claros e justificados, o que garante, além de maior eficiência nos objetivos traçados, que não haja privilégios ou favorecimentos de qualquer ordem.

A imunização é estratégia coletiva, não individual, e tem como objetivos definidos pelo Ministério da Saúde, neste primeiro momento, a proteção dos grupos mais expostos à infecção e com maiores riscos para agravamento e óbito pela doença e a manutenção do funcionamento dos serviços de saúde.

A cultura do “jeitinho brasileiro” mais uma vez nos desafia enquanto sociedade. Para além da responsabilização nas esferas criminal, cíveis e por improbidade administrativa dos envolvidos nessas reprováveis condutas, o que vem sendo objeto de trabalho preventivo e repressivo do Ministério Público de Santa Catarina, a atitude merece forte reprovação moral e social, já que afeta toda a coletividade, em especial as pessoas que integram os grupos prioritários, expostas a maior risco pelo adiamento do acesso à imunização, mas também os demais cidadãos que aguardam por sua vez na fila.

É preciso, portanto e mais uma vez, relembrar o objetivo fundamental da República Federativa do Brasil de construção de uma sociedade, além de livre, justa e solidária. Justiça e solidariedade no processo de imunização consistem na priorização rigorosa dos mais vulneráveis. A proteção do indivíduo, nesse caso, serve à proteção coletiva.

E que em breve, com a eficiência da estratégia e a ampliação do acesso à vacina, o brasileiro possa voltar a esbanjar a característica bem descrita por Darcy Ribeiro no livro “O povo brasileiro”: sua “inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade”.

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