Cortar na própria carne

É impossível prever o efeito da pandemia do coronavírus na
economia mundial. Além dos milhares de mortos, o vírus chinês vai deixar pelo caminho uma crise sem precedentes. Num horizonte de incertezas, a paralisação da atividade econômica já mostra uma dura realidade: indústrias concedendo férias coletivas, pequenos comerciantes fechando as portas, anúncio de demissões e a preocupação com a sobrevivência de milhões de brasileiros que vivem na informalidade. Nenhuma Nação estará a salvo da crise econômica pós-pandemia.

Grupo ND – Foto: Reprodução

O abalo econômico está sendo sentido de forma mais intensa na atividade privada com a paralisação dos negócios. Não há um único segmento do mercado que não esteja sofrendo os impactos da estagnação dos serviços, do comércio e da indústria e a consequente quebra da cadeia produtiva. Faltam insumos para produzir, faltam funcionários para trabalhar, clientes para vender e público para consumir. É consequência do isolamento social.

Diante de cenário de tamanha gravidade, empresários estão tomando medidas para se resguardar diante do inevitável: corporações reajustam suas estruturas, empresas negociam redução de jornadas e salários, pequenos e médios empresários buscam soluções alternativas para manter os
negócios em pé. É preciso se reinventar nestes tempos de crise para sobreviver. É preciso agir rápido, cortar despesas para manter as portas abertas.

Nossa proposta é para que, com
exceção dos servidores ativos da
Saúde e Segurança, todos os servidores
de todos os Poderes tenham uma redução
de 25% dos seus ganhos por 90 dias”.

De outro lado, como se habitassem outro planeta, os poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário e o Ministério Público – em nenhum momento, desde que a crise do coronavírus começou, fizeram qualquer gesto, qualquer movimento para abrir mão de seus orçamentos milionários para ajudar o país com recursos para a Saúde. É preciso perguntar: em que mundo vivem? Estão isolados da realidade terrena? De costas para a sociedade teimam em manter o “status quo”, sem fazer sacrifícios ou qualquer gesto.

A grande maioria dos servidores dos poderes está em casa, cumprindo a quarentena, assim como milhões de inativos, todos bem protegidos do coronavírus, como se estivessem em férias, gozando as delícias de uma folga forçada. No início do mês seus salários – que são superiores à média paga para a mesma função na iniciativa privada – serão depositados no banco.

Gozam de estabilidade e não temem perder o emprego. Nenhum ministro, nenhum governador, nenhum representante dos três poderes ou do Ministério Público levantou a voz para propor o desconto de dias parados, antecipação de férias, corte de gratificações ou privilégios. É inadmissível que, à exceção dos servidores da área da Saúde e Segurança – que são os verdadeiros heróis nesta guerra contra o vírus – milhares de funcionários públicos mantenham intactos seus ganhos enquanto grande parte da população terá dificuldades para ganhar o pão de cada dia.

Os brasileiros já não aceitam mais carregar nas costas uma gigantesca máquina pública trabalhando e pagando impostos para manter uma casta de servidores que ficaram ofendidos quando chamados de parasitas pelo ministro Paulo Guedes, da Economia, num descuido vocabular. Os maiores salários estão entre os servidores dos poderes, não na iniciativa privada. É justo que dividam este custo da crise com todos os brasileiros.

A grande lição do coronavírus é que os governos falharam. Assim como falharam nossos congressistas, governadores e prefeitos. Falharam ao não oferecerem aos contribuintes uma rede pública eficiente, equipada, ambulatórios e UTIs capazes de salvar vidas. O colapso da saúde no país já existe há muito tempo. A Covid-19 só evidenciou que pecamos pela falta de investimentos, pela visão desfocada de uma realidade que a maioria da população enfrenta nas filas dos hospitais, na espera pelas cirurgias e na falta de médicos e remédios para aliviar suas dores.

A prioridade neste momento é impedir o avanço da Covid-19. Mas  conhecemos bem nossos governantes e nossa classe política. Os brasileiros foram às ruas em 2018 para mudar o Brasil. Novos protagonistas entraram na cena política, embalado pelo discurso do novo. Muitos deles hoje estão no poder e nada fizeram para mudar o que precisava ser mudado. Por isso, é hora de a sociedade impor aos políticos e gestores públicos uma nova pauta.

É hora de acabar com as mordomias dos habitantes do planeta chamado Brasília. Se os próprios políticos não o fazem, a sociedade deve fazer, cobrando e protestando.

A sociedade tem razão de se revoltar com as carências sempre proteladas pelos governantes. Chega de prédios públicos suntuosos, gabinetes, batalhões de assessores, supersalários, privilégios que não podem existir mais num
país que tem tantas carências. É hora de acabar com as mordomias dos habitantes do planeta chamado Brasília. Se os próprios políticos não o fazem, a sociedade deve fazer, cobrando e protestando.

Os brasileiros não aceitam mais penduricalhos como o auxílio-mudança, verbas indenizatórias, tratamento de saúde sem limites, gabinetes lotados de assessores, gastos com diárias e passagens aéreas, ajuda de custo, auxílio-creche, gratificações e auxílio-alimentação. Em um país em dificuldades, com um rombo no orçamento, como justificar tantos privilégios? O custo do Legislativo brasileiro é o segundo maior do mundo. Isto é um escárnio, um
deboche.

Os poderes da República muitas vezes parecem caminhar na contramão da sociedade. Isso precisa mudar. Mais do que nunca é necessário que cortem na própria carne em benefício da maioria dos brasileiros. É revoltante perceber
que neste país existem duas classes de cidadãos: servidores privilegiados e os cidadãos comuns. Nossa proposta é para que, com exceção dos servidores ativos das áreas de Saúde e Segurança, todos tenham uma redução de 25% dos seus ganhos por 90 dias.

Os poderes da República muitas vezes parecem caminhar na contramão da sociedade. Isso precisa mudar. Mais do que nunca é necessário que cortem na própria carne em benefício da maioria dos brasileiros.

E que todos os recursos sejam encaminhados para que o Governo Federal utilize na área da saúde na luta contra o coronavírus. Este seria um gesto importante, simbólico, para alinhar os poderes com a sociedade.

É o momento de revisarmos o modelo de Estado, gigante e ineficiente, sugador de recursos públicos, com orçamentos generosos que garantem a folha de pagamento de milhões de servidores, mas inviabiliza investimentos por falta de verbas. Precisamos de um pacto, envolvendo toda a sociedade, para mudar radicalmente este que existe para beneficiar uma categoria privilegiada
ao invés da maioria da população.

É hora de repensar o modelo de governança, tornando a máquina pública mais enxuta e eficiente para que esteja a serviço do cidadão. Chega de impor sacrifícios àqueles que trabalham e produzem para usufruto dos poderes, dos servidores de primeira classe que se protegem e se beneficiam das próprias
leis. É o momento de repensar o Estado brasileiro. É preciso
mudar este modelo para mudar o Brasil.

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