Excesso e prepotência

O episódio envolvendo a morte do ex-reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, provocou uma inusitada comoção dentro e fora dos portões da universidade. Extrapolou o âmbito acadêmico e ganhou dimensão nacional. As pessoas ficaram chocadas com a decisão do ilustre professor de tirar a própria vida, pondo fim a uma carreira brilhante e vitoriosa. Não foi a forma que encontrou para isso, mas o real motivo que o levou a uma atitude extrema e desesperada. O bilhete encontrado no seu bolso é a confissão de um homem inconformado com a humilhação pública a que foi submetido: “Minha morte foi decretada no dia de minha prisão”.

Sem antecedentes criminais, com endereço fixo e conhecido, com título de doutorado em Direito, Cancellier foi considerado suspeito de obstruir o trabalho de investigação interna que culminou com a operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal, que apura suposta fraude envolvendo repasse de recursos federais para aplicação em bolsas de estudos com ensino à distância. As fraudes teriam sido iniciadas em gestões passadas. O reitor não se beneficiou diretamente, mas acabou pagando um preço alto por ser o responsável pela instituição.

Para muitos, o reitor Cancellier foi “suicidado” pela Polícia Federal e pela Justiça, com apoio da mídia, já que se questiona a forma como o processo foi conduzido que o levou a uma prisão temporária, jogado dentro de um cubículo, passando pelo vexame de ficar sem roupa e ter algemas nos pulsos e pés, como um criminoso de alta periculosidade.No velório não faltaram discursos inflamados que condenaram a Polícia Federal por excesso e prepotência e ao Judiciário pela decisão de decretar a prisão do reitor. Também a imprensa, que tudo registrou, não foi poupada.

A verdade é que a PF, ao convocar uma coletiva, dá sempre o tom da operação. Cabe à mídia registrar e divulgar os fatos, com isenção. Todavia, o que se verifica é uma necessidade da PF de espetacularizar suas operações, mesmo sabendo que todos são suspeitos até que se prove o contrário. A lógica, no caso do reitor Cancellier foi invertida: primeiro se prende o suspeito, enxovalha sua imagem e sua honra, para depois fazer com que ele prove sua inocência. Um episódio lamentável que reflete a inversão de valores em que a sociedade brasileira está submetida.

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