Faltou a lição de casa

Com o discurso de mudar o país, deputados federais e senadores foram eleitos para as atuais legislaturas. Era o momento de acabar com a velha política, mudar o país que estava condenado por um modelo apodrecido, que comprometia o nosso futuro. A máquina pública, gigante e improdutiva custava caro e mantinha privilégios e benefícios para poucos, enquanto a maioria da população não contava com serviços básicos como saúde, educação e segurança.

Há um ano e meio que os novos políticos estão no poder, ocupando governos de Estado, Congresso, Câmara Federal e o Senado, casas que tiveram um grande índice de renovação. Mesmo assim, com o discurso de mudança, a realidade nacional não mudou, avançou muito pouco em relação ao passado recente. Mesmo os políticos que encararam o seu primeiro mandato, embalados pelos ventos da mudança, continuam agindo como velhos políticos.

A crise do coronavírus só revelou uma situação que todos os brasileiros já conheciam: a precariedade do nosso sistema de saúde. O colapso da saúde sempre existiu neste país desigual, onde ocorrem mortes nos corredores dos ambulatórios e pessoas padecem nas filas em busca de exames e atendimento. Mas até então estas milhares de vidas passavam despercebidas e faziam parte de estatísticas oficiais.

A Covid-19 apenas escancarou que há muito nossos governos deixaram de investir na saúde pensando no bem-estar do cidadão. Mas o que os nossos congressistas, deputados federais e senadores, fizeram neste momento de crise, quando se evidencia o fracasso do modelo de governança e a incompetência do Estado para evitar a pandemia?

Não sinalizaram qualquer gesto, qualquer decisão, qualquer lei para diminuir o tamanho do Estado, reduzir as despesas e os privilégios para manter uma máquina pública que consome tudo o que o Brasil produz. Em nenhum momento sacrificaram os seus salários, benefícios e privilégios, o que era de se esperar neste momento de enfrentamento de uma grave crise.

O coronavírus tem provocado mudanças em todos os aspectos sociais, econômicos e políticos, e até de comportamento. São lições que vieram para ficar. Era o ambiente necessário para mudarmos o tamanho do Estado, repensarmos as estruturas dos poderes públicos, quebrar paradigmas e mudar o Brasil. Infelizmente, nada disso aconteceu. Agora, os governadores e prefeitos pedem socorro ao Governo Federal para que libere R$ 89,3 bilhões para compensar as perdas com arrecadação de impostos.

Como se fosse uma empresa, os governadores querem que a União reponha a sua arrecadação, o seu faturamento, para que mantenham a sua receita garantida para pagar a sua estrutura. É um pleito legítimo, porém, será que estes governadores e prefeitos fizeram a lição de casa antes de bater às portas do Governo Federal? É claro que não! Há exceções, poucos exemplos.

Cabem as perguntas: que compromissos assumiram com a economia e a
eficiência de seus governos? Que soluções encontraram para economizar na folha de pagamento? Qual o processo que adotaram para manter enxuta a estrutura? Qual o grau de eficiência e produtividade dos servidores públicos? São questões que os gestores públicos devem responder para a sociedade, para quem os elegeu.

Os brasileiros já não toleram mais manter a máquina pública do tamanho que está apenas para atender quem está nela inserido. Governadores pleiteiam bilhões para equilibrar suas contas, é verdade. Mas sem nenhuma atitude, nenhuma gestão de enxugamento, de redução e de cortes de privilégios? A carta dos governadores pedindo ajuda foi assinada pela maioria dos governadores, mas Ratinho Júnior (PR) e Romeu Zema (Minas Gerais) decidiram assumir para si a responsabilidade.

Com certeza, cortarão na carne e farão a economia necessária para manter as
contas em dia. A maioria, entretanto, pede auxílio de pai para filho. Muitos dos que foram eleitos pelo pai se voltaram contra ele, como na parábola do filho pródigo. O financiamento aos governos e prefeitos vai servir para pagar salários, para a rolagem de dívidas, financiamentos e manter a máquina pública em funcionamento.

Melhor seria que os bilhões do Governo Federal fossem investidos na saúde pública, na manutenção de hospitais e de equipamentos que garantissem saúde à população. Porque virão no futuro outros vírus tão letais como a Covid-19. E quando surgirem o Covid-20, 21 e 22? Estaremos preparados para
evitar as mortes?

O Governo Federal já sinalizou que não terá como financiar os governadores na proporção que desejam, mas terá de ir a banco para buscar os recursos pagando só de juros R$ 9 bilhões ao ano. Mais uma vez, quem vai pagar a conta da crise do coronavírus é o contribuinte que com seu imposto vai continuar mantendo o Estado brasileiro.

Na verdade, pagará duas vezes: agora com a paralisação da economia e com o desemprego e, no futuro, quando a União não tiver condições de fazer os investimentos que a população necessita por falta de recursos. É preciso que, neste momento, cada um faça a sua parte.

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