Não ao Fundo Eleitoral

Os brasileiros apoiaram a Reforma da Previdência e aceitaram trabalhar e contribuir mais para evitar a quebra do sistema previdenciário, confian­do num futuro melhor. Deram provas de que esperam um novo Brasil, com mais respeito ao dinheiro arrecadado com os impostos. Nas últimas elei­ções, de forma consciente, garantiram a renovação das casas legislativas e co­locaram no poder um novo governo. Tudo para pôr fim ao modelo ineficiente, irresponsável e corrupto que lançou o país numa grave crise econômica, política e social. A renovação nas urnas queria acabar com as velhas práticas políticas de privilégios e benesses. Mesmo assim, há políticos que não estão em sintonia com a sociedade. Insistem em defender o antigo modelo em benefício próprio e usar o dinheiro público para se perpetuar no poder, como o auxílio-mudança, que denunciamos aqui.

Um exemplo escandaloso é a proposta, já aprovada em comissão do Congresso Nacional, para aumentar o Fundo Eleitoral de R$ 1,7 bilhão para R$ 3,7 bilhões – um incremento que mais do que dobra os recursos destinados aos partidos para as eleições do ano que vem. A iniciativa, do deputado baiano Cacá Leão (PP), embutida na Lei de Diretrizes Orçamentárias, atende ao desejo das lideranças partidárias. Um verdadeiro escárnio, que pode ser votado esta semana e obriga os contribuintes a sustentarem os partidos e candidatos.

A proposta é um tapa na cara dos brasileiros. Em meio à necessidade de eco­nomizar e reduzir a crise fiscal que enfrentamos, nada justifica o aumento do Fundo Eleitoral. A iniciativa só mostra que a classe política ainda não merece confiança, pois não está alinhada com o Brasil que queremos e precisamos cons­truir. O que precisamos é corrigir esta grave distorção do sistema político-eleito­ral. Um Fundo Eleitoral público, que recebeu na eleição passada R$ 1,7 bilhão, não pode existir. O dinheiro público serve a fins públicos, como construção de escola, posto de saúde, compra de viatura para a polícia e tudo mais que beneficiar a sociedade. Não pode servir à compra de santinhos, pesquisas, cabos eleitorais e assessores.

Já na eleição passada, nos grandes partidos, o fundo tornou os políticos de­pendentes dos presidentes das legendas. Foi uma jogada maquiavélica, que as velhas raposas do poder orquestraram. Enquanto o povo saiu às ruas para dizer não a isto tudo, o Congresso votou para triplicar a Verba Partidária. Depois, veio o fim do financiamento privado de campanha e o fim das coligações na eleição proporcional. E enquanto a população aplaudia a eventual redução da quantidade de partidos, votaram a verba eleitoral, um absurdo!

Afinal, como pode ser independente um parlamentar que precisou pedir di­nheiro aos presidentes do partido para fazer a sua campanha? Quem não é capaz de montar estratégias para convencer o eleitorado e vencer sem precisar do tra­dicional beija-mão não deve ocupar um cargo eletivo. Mais ainda: pelo menos a metade do Congresso foi eleito estando inserido nessa nova realidade da política, sem necessidade grandes somas em dinheiro, com campanhas baratas. Agora que chegaram ao Poder, não podem corroborar com esse aumento. Do contrário, não estarão representando o que defenderam. Ou vão pagar equipe e santinho com merenda escolar, com remédio do posto de saúde, com a gasolina da via­tura?

Basta! Os partidos são entidades privadas e devem encontrar formas de ban­car seus gastos. Devem se financiar com recursos dos seus simpatizantes, aque­les que comungam da mesma bandeira programática, que possuem afinidade com o seu ideário. Não podemos aceitar que esse fundo custeie legendas de alu­guel. Fundar partidos, com a atual legislação, parece ser um bom negócio e não pode ser assim.

Essa nova investida de parte da classe política mostra que no estágio atual da construção desse novo Brasil é preciso se manter vigilante. É preciso dizer constantemente aos nossos representantes como queremos que o país funcione. Seja indo às ruas, como aconteceu com a reforma da Previdência, seja por mani­festações diretas, no contato com os parlamentares de cada região. O governo, o Congresso, as leis, precisam estar alinhadas com o novo Brasil.

E mesmo que exista a perspectiva de redução do número de partidos, em função do fim das coligações proporcionais, está bem claro que não será o suficiente. Se não entender o que o brasileiro de fato quer, a classe política nunca recuperará a sua credibilidade e estará arriscando que se radicalize ain­da mais os meios de governar este país. O dinheiro púbico deve bancar o que a população ne­cessita. Nunca estruturas, nunca a política, nunca privilégios, benefícios ou qualquer demanda extra criada pela classe po­lítica. Antes, faziam campanhas com a corrupção do dinhei­ro privado. Agora, querem fazer campanhas assaltando o di­nheiro público. Para campanhas e para partidos políticos, verba eleitoral e partidária zero já!

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