Pacto pela cidade

Na paisagem de Florianópolis o caos urbano está bem visível. O problema não está apenas nos morros ou na periferia. A ocupação desordenada dos espaços pode ser vista na área central e em bairros nobres, em novas construções e prédios recém-inaugurados.

São arranha-céus que avançam sobre morros verdes, gigantes de concretos construídos em servidões de difícil acesso, obras feitas com a finalidade apenas de obter lucro, sem qualquer preocupação com o presente e o futuro da cidade.

A falta de um Plano Diretor definitivo, que esbarrou na burocracia e num interminável debate, favoreceu empresários inescrupulosos a ocuparem cada metro quadrado disponível na bela Ilha-Capital. Muitos empreendimentos foram erguidos com base em leis arcaicas, defasadas, que não levam em conta, por exemplo, o impacto sobre a vizinhança.

As brechas legais permitiram construir cada vez mais nos terrenos disponíveis, onerando o município que tem de atender a demanda por mais serviços públicos. Os novos moradores exigem coleta de lixo, fornecimento de água e tratamento de esgoto. Sem falar na infraestrutura de saúde, creches e escolas.

Os prédios se multiplicam e a verticalização da cidade é uma realidade. Porém, nem todas as obras são bons exemplos de soluções urbanas. Ao contrário, são excrescências, atentados ao bom gosto.

No Itacorubi, um conjunto de apartamentos destinados à classe média foi construído junto da mata, avançando sobre a natureza. O acesso é precário e estreito. O trânsito no entorno sofrerá as consequências do empreendimento. Afinal, novas 200 famílias e seus carros passarão a circular pela região.

Na área central, uma construção histórica onde funcionou uma fábrica de rendas, viu nascer dentro do terreno três espigões amontoados, num total desrespeito à convivência harmônica com a história e as tradições da família de pioneiros. São exemplos da ganância e da falta de compromisso com a cidade.

Mas em meio à paisagem urbana há projetos recentes que são exceções. São construções novas que valorizam a arquitetura da cidade e resgatam a sua história. São bons exemplos de uma visão contemporânea que harmoniza o presente e o passado.

A antiga casa do ex-governador Hercílio Luz ressurgiu após uma minuciosa restauração e no mesmo espaço foi erguido um moderno complexo multiuso. No antigo cais do porto, onde havia galpões, hoje a família ergueu um centro executivo em honra e memória aos seus ancestrais. São bons exemplos de que é possível o convívio entre o passado e a modernidade.

O futuro da Capital estará irremediavelmente comprometido se não houver um pacto pela cidade, um compromisso com o futuro. Estes maus empresários, que se apropriam do espaço urbano apenas para lucrar, pagarão preço alto pela deterioração da qualidade de vida, porque seus próprios negócios serão afetados a médio e longo prazos.

É hora de mudar esta mentalidade exploratória e gananciosa de pensar apenas no agora e não na Florianópolis de amanhã. Esta cidade, tão bela e encantadora, corre o risco de se transformar no Rio de Janeiro, hoje uma cidade em decadência. Basta ver a ocupação desenfreada dos morros e as invasões com novos barracos que surgem todos os dias.

Nos bairros de classe média alta o problema também existe, como mostrou a reportagem do ND. Neste caso, a solução não passa pelo aumento do número de fiscais, por drones que tudo captam, tampouco pelo exaustivo trabalho dos órgãos de segurança e Justiça, mas pela iniciativa das lideranças empresariais, sociais e políticas da cidade.

Que Florianópolis queremos para o futuro? Que cidade desejamos para nossos filhos? Que legado os empresários e construtores querem deixar para seus descendentes? São perguntas que devem ser feitas hoje. Repactuar a cidade exigirá que todos se unam numa cruzada para evitar a destruição de nosso maior patrimônio, a qualidade de vida.

Isto será possível se houver um Plano Diretor de verdade, com respeito às leis e uma nova consciência dos empreendedores, que busquem sim o lucro, que é legítimo, mas com projetos que estejam em harmonia com a cidade. É preciso mudar este quadro e planejar o crescimento ordenado de Florianópolis, antes que seja tarde demais.

+

Editoriais