Valorizar a terra

O cantor e compositor Gilberto Gil pode ser considerado um gênio da raça, um músico inspirado e uma grande expressão da MPB. Este é um fato inquestionável. Porém, qual a sua contribuição efetiva ao povo de Florianópolis? Que envolvimento teve com a cidade onde não colocou mais os pés depois da prisão por porte de maconha em 1976? Que participação teve, ao longo de sua carreira, com a arte e a cultura da Ilha, tão rica e tão desprezada?

Gil cantou em prosa e verso a Bahia que o viu nascer. Fez letras memoráveis, melodias que estão na boca do povo, versos que eternizaram o jeito baiano de ser. Mas por que mereceria o título de cidadão honorário de Florianópolis?

Foram estes questionamentos que emergiram após reportagem do ND sobre a aprovação, em primeira votação, da proposta dos vereadores Afrânio Boppré (Psol) e Roberto Katumi (PSD), finalmente rejeitada ontem em segunda votação.

A proposta de dar um título a Gil dividiu opiniões desde que a homenagem se tornou pública. A repercussão foi negativa, porque muitos florianopolitanos não concordam com a honraria. Nem havia unanimidade dentro do Legislativo.

O principal articulador da homenagem, o psolista Afrânio Boppré, viu a oportunidade de a cidade reconciliar-se com seu passado. Para este vereador o título seria uma espécie de um pedido de desculpas ao artista pela prisão “injusta e truculenta” e um agradecimento à sua contribuição cultural.

É certo que, caso desejassem, os nobres edis encontrariam dezenas de nomes importantes no cenário artístico e cultural para homenagear entre literatos, músicos, artistas, poetas, dramaturgos, apenas para ficar no campo das artes.

A escolha do nome do músico baiano revelou o desejo de enaltecer personalidades de fora em detrimento de valores locais. Faltou bom senso. Aqui há tantos talentos que, como Gil, dignificam a nossa cultura. Nossos legisladores precisam, antes de tudo, conhecer e valorizar os nomes da própria terra.

+

Editoriais