Mestre de obras cego supera deficiência para erguer e pintar a própria casa

Vítima de um acidente de trabalho, o profissional dá lição de vida e mostra que sempre é possível recomeçar

Marcos Horostecki/ND

Carneiro não enxerga nada há dez anos, mas deficiência não o impediu de pintar a casa

Itapema – O mestre de obras Noel Carneiro, 51 anos, é daquelas pessoas que já passaram por todo o tipo de dificuldade. Doenças, separações, alcoolismo, enchentes. Mal um desafio era superado, outro ainda maior era imposto. Casou-se três vezes, ficou viúvo e teve quinze filhos. Morador da periferia de Itapema, no Litoral Norte e deficiente visual desde 2003, não se cansa de mostrar a vizinhos e amigos que sempre é possível recomeçar. Mesmo sem enxergar absolutamente nada há quase dez anos, foi capaz de trabalhar na construção de sua própria casa e, mais recentemente, de realizar a pintura de todos os cômodos e das paredes externas da residência.

“Muita gente duvidou e me perguntava ou perguntava para minha esposa se eu era realmente cego. Mas aqui é meu espaço, eu sei exatamente onde estão as coisas e com um pouco de determinação foi possível fazer”, explica. Como viveu boa parte de sua vida da construção civil, empreitando e erguendo casas e prédios de pequeno porte, Carneiro bem que tem vontade de fazer algum serviço desse tipo em outro local, mas admite que seria muito mais difícil. “Teria dificuldade para saber onde estão as coisas e ficaria complicado entregar um serviço que agradasse a pessoa, como eu fazia antes”, argumenta.

Como teve visão normal por muito tempo, o mestre de obras afirma que ainda tem dificuldades para se movimentar. “É diferente de quem nasceu com a deficiência ou ficou cego quando criança”, acrescenta. Para ir até o centro da cidade e executar pequenos serviços em casa, conta com a ajuda do filho caçula, Adriano, o único do terceiro casamento. Os pequenos consertos, obras e afazeres domésticos são rotina e sinônimos de saúde. “Para mim é muito importante se movimentar e encontrar coisas para fazer. Ficar parado não faz bem para a cabeça”, ensina.

Técnica de pintura adaptada à deficiência

Para pintar a casa Carneiro desenvolveu uma técnica própria. Primeiro se localiza em relação às paredes e trata de ter todos os equipamentos à mão. Depois encontra os detalhes e tenta isolá-los para garantir um melhor acabamento. Ao contrário do método tradicional, ele pinta de baixo para cima, buscando evitar o acúmulo indesejado de tinta. A precisão com rolo ou com o pincel é importante, principalmente para que o trabalho não apresente falhas. “Pergunto se está bom e quando o pessoal fala que está errado repito o procedimento até acertar”, explica.

Se a parede estiver áspera ou com rachaduras, também não há problema para o mestre de obras. Com a mesma precisão que pinta, ele espalha a massa corrida e acerta os detalhes, tudo sem ajuda de ninguém, a não ser da mulher, que também é portadora de deficiência mental leve e do filho, que apoiam com opiniões e transportando algum material. “Isso aqui é o que eu sei fazer. Fiz a vida toda. Sempre entreguei as obras. Como não posso mais fazer para os outros faço para mim”, continua.

Casa é cartão de visitas da profissão

Carneiro diz que a casa de um mestre de obras não pode estar mal pintada ou com problemas de estrutura, mesmo que ele seja cego. É um cartão de visitas da habilidade e capacidade de execução dos serviços. No entanto, vivendo da aposentadoria por invalidez e da pensão por doença da esposa, seria difícil contratar alguém para fazer a pintura e realizar consertos na casa. “Como era preciso eu mesmo decidi fazer. Fui trabalhando e todos me dizem que ficou bom. Mostra que sou útil e posso produzir”, ensina.

Com medo das sequelas do acidente que o deixou cego, Carneiro diz que possui uma rotina repleta de afazeres. Não abre mão do fogão à lenha para cozinhar. Uma tradição da Serra Catarinense, onde nasceu. Muitas vezes, é ele quem cuida da alimentação da família, principalmente quando a esposa tem algum problema mais sério de saúde. Se for preciso, também lava e passa a roupa.  “Tudo com se fosse uma pessoa normal”, diz. “Tenho uma rotina e coisas para fazer o dia todo. Às vezes não dá nem para fazer a barba”, complementa.

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