Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A bondade está irreconhecível

O STF decidiu também proibir a CPI de investigar a aplicação de verbas federais nos estados

O STF proibiu a CPI do Circo de convocar governadores. Sim, o mesmo STF que deu aos governadores a prevalência sobre as políticas de enfrentamento à pandemia – que em vários casos se transformou em escândalo de desvio de verbas emergenciais, o famoso Covidão.

CPI da Covid no Senado – Foto: Leopoldo Silva/Agência SenadoCPI da Covid no Senado – Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Famoso só até a porta da suprema corte, porque da porta para dentro aparentemente ninguém conhece. Ou pelo menos ninguém parece preocupado com a investigação dele. Do contrário uma comissão de inquérito não seria impedida de ouvir os protagonistas do rolo. Mas não parou por aí.

O STF decidiu também proibir a CPI de investigar a aplicação de verbas federais nos estados. Note bem: pela decisão supracitada do mesmo STF, toda a gestão da crise do coronavírus foi transferida para os estados (e municípios) – das políticas de segurança sanitária ao atendimento de saúde, ou seja, compra de equipamentos, construção de hospitais de campanha, etc.

Como você já sabe, foi aí que floresceu o escândalo do Covidão. Há uma CPI para investigar a gestão da pandemia no Brasil – CPI esta que o próprio STF mandou o Senado instalar. Ou seja: o mesmo STF que mandou investigar a gestão proibiu a investigação dos gestores.Faz sentido. Quem deu as caras – e brilhou – na CPI do Circo foi o governador afastado do Rio de Janeiro Wilson Witzel, que a polícia flagrou no Covidão e cujas mãos a Justiça mandou remover da cumbuca.

Fora do jogo, sem mais nenhuma implicação direta na administração pública, Witzel apareceu na CPI com a leveza de um turista numa cadeira de praia em Copacabana. Ele parecia ter uma forte intuição de que seria bem tratado – e não deu outra.

Aqueles homens rudes que rosnam para médicas trataram o protagonista do Covidão no Rio como uma dama. Renan Calheiros, quem diria, é hoje o grande fornecedor de manchetes para a imprensa – sempre do lado do bem, da vida e da caçada aos homens maus que querem que todo mundo morra.

Quando apareceram lá no tribunal dele cientistas que estudam drogas antivirais no tratamento à covid – conforme experiências em andamentos em várias partes do mundo – Calheiros virou as costas. Resolveu simplesmente abandonar a sessão. Mas um herói nunca está só – e lá foram atrás dele os jornalistas intrépidos que escrevem tudo que ele diz para confrontar os negacionistas, fascistas e satanistas.

Dessa união bonita em favor da bondade floresce também a campanha contra o voto auditável – um bloco que o STF e o TSE botaram na rua com direito a panfleto, megafone e subcelebridades engajadas na luta contra esse perigo que é a sociedade poder contar os votos que deu para os seus candidatos. É a luta do bem contra o mal – ou do mal contra o bem, dependendo do ponto de vista.

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