Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


A crise perfeita

O Brasil consegue a crise perfeita: revogaram a Lava Jato, a Lei da Ficha Limpa e reabilitaram todos os condenados e processados

“O Brasil não foi feito para principiantes”, definiu certa vez o grande Tom Jobim. E Roberto Campos, em seu “Lanterna na Popa”, arrematou:– No Brasil, até o passado é incerto. Por exemplo: o antigo Supremo Tribunal Federal não existe mais. Transformou-se no Supremo Executivo Federal, que assumiu o governo.

Com isso, acumula as funções de Ministério Público, que denuncia, polícia, que investiga, e, exerce o papel de “si mesmo”, processando e julgando. O Brasil consegue a crise perfeita: revogaram a Lava Jato, a Lei da Ficha Limpa e reabilitaram todos os condenados e processados.

STF (<span id="page45R_mcid5" class="markedContent"><span dir="ltr">Supremo Tribunal Federal</span></span>) &#8211; Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Divulgação/NDSTF (Supremo Tribunal Federal) – Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Divulgação/ND

Chegamos à incredulidade absoluta. Precisamos de políticos honestos – e, acreditem, eles existem. Mas as pessoas de bem não suportam lidar com o lodo e a lama que pavimentam a vida pública brasileira. Deixam o protagonismo para os “homens das malas” e, assim, inviabilizam a boa política.

Há políticos honestos – e constrangidos. E há os que estão na ribalta. A canalhocracia de certos políticos, ladrões, não conhece limites, pois roubam até mesmo a verba destinada à pandemia.Apanhados com a boca na botija, sua primeira reação é contra a prova, que teria sido “manipulada”, “adulterada”, “falsificada”. Comprovada a autenticidade, alegam que “a prova é nula de pleno direito, pois obtida ilegalmente”.

Sobre seu crime, nada dizem, nada explicam. Reclamam do “grampo” ou da “gravação”. Grave é a prova. O crime é prática corriqueira, um pecado apenas “venial”. O brasileiro honesto não merece viver debaixo da interminável tempestade que troveja sobre suas cabeças. É a “República dos Assaltantes”, sob a égide da “Onorata Omertá”, ou a “Republica dos Transgressores Perdoados”, bandidos dos quais ninguém pode se orgulhar.Em qualquer das duas Repúblicas é difícil respirar.

No Brasil, de 1834 a 1988 – “elegeram-se” oito constituições, algumas outorgadas – e o “retrato” é confuso, tanto quanto pode ser atrapalhada uma nação presidida por uma Carta de quase 500 artigos e um sem-número de emendas, algumas tão irrelevantes quanto as que alteram artigos que deveriam estar numa lei comum.

Na nossa “Carta-Cidadã”, o sujeito quer aumento de salário e já pensa numa PEC – mais um remendo no “Livrinho”…Temos aqui um sério problema de “cultura”, um vício rapinante: se não deu pelo caminho legal, invente-se na saída, no jeitinho, na fórmula de tornar legal o ilegal e o imoral.

Mexe-se na Constituição como se esta fosse uma letra de samba experimental numa roda de bambas da Mangueira. Não há deputado ou senador que não tenha apresentado a sua PEC, na expectativa de perpetrar o seu mesquinho casuísmo.

Não é possível que para se mudar o voto, transformando-o em “eletrônico” e “impresso”, requeira-se uma emenda constitucional. Por que não uma simples lei ordinária?É o “amor” do Brasil pela complicação.O Brasil será mais livre e respeitado no dia em que deixarem a Constituição em paz

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