Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


A democracia requer cuidados

Votar é refinar, escolher. É, primeiro, eliminar os “maus”. É preciso saber separar os homens – que são passageiros – das instituições, que são perenes

O que fazer quando um vírus letal ataca a célula da democracia? Quando delinqüentes poderosos usufruem de quatro instâncias de recursos imunizantes contra a punibilidade?

<span dir="ltr">“Democracia” é uma mulher da vida &#8211; mas, </span><span dir="ltr">em todo caso, é a “menos feia” desse hospício </span> &#8211; Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Divulgação/ND“Democracia” é uma mulher da vida – mas, em todo caso, é a “menos feia” desse hospício  – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Divulgação/ND

O que fazer quando há um novo partido político na terra dos 40 partidos, o PSTF, transformado em instância única para decidir questões de outros poderes, em nítida e indisfarçada usurpação?

A “Juristocracia” está legislando todos os dias, em nome de uma vida arbitrária. Proibir que o brasileiro vá pronunciar uma prece no ambiente sagrado dos templos, mantidos todos os cuidados e protocolos da distância social, é uma óbvia subtração de direitos.

Aos poucos, esse novo poder exclui a Constituição Federal e instala uma ordem prevalente, que esmaga o instituto principal da cidadania.Há bons motivos, diriam os “juristocratas”. Claro, a pandemia ameaça a vida da humanidade todos os dias, mas o confinamento de fiéis não chega a ser uma vacina, nem um “tratamento”. É só uma medida discricionária, que interfere num direito fundamental.

O ideal é preservar-se os dois: o direito à vida e o direito ao culto, com cuidados para a proteção do primeiro. Mas proibir a presença do fiel nos ritos da fé não chega a ser uma solução – é, antes, um sacrilégio contra a Constituição e contra os direitos individuais básicos. A prevalência de decisões inconstitucionais abala o equilíbrio desta senhora hoje tão mal afamada, “Dona Democracia”. Todos falam em seu nome. Alguns para usá-la.

Pois a Democracia é uma senhora permissiva. Admite que os que nela vivem, dela falem mal. Ou até mesmo tentem destruí-la. Ora, “Democracia” é uma mulher da vida – mas, em todo caso, é a “menos feia” desse hospício em que se transformou a civilização governada pelo sistema dito “representativo” nos dias de hoje.

É tanta trampolinagem, tanta intolerância contra os direitos da cidadania ultrajada, que até mesmo esta mocinha, a Democracia, outrora tão cortejada, passa a ser um ente assexuado e sem graça.

Quando o “alcance” do dinheiro público ganha a dimensão de uma pandemia – e quando a justiça hipervaloriza o direito dos réus e acaricia a fronte dos ladrões – emerge das urnas a dúvida e a perplexidade do eleitor:– Votar adianta alguma coisa? Faz a diferença? Ora, votar é depurar. Em quem votar? No menos pior? E se o melhor se revelar o pior?

Democracia deveria vir com um certificado de garantia, como um carro, um eletrodoméstico. Não adiantou, tá “bichado”? Faz um “Recall”: funciona como aqueles selos colados num bom livro. Sinal de que é possível trocar o presente na livraria de origem, se o obsequiado já o possui. É preciso perseverar no aperfeiçoamento dessa mulher permissiva e difamada.

Votar é refinar, escolher. É, primeiro, eliminar os “maus”. É preciso saber separar os homens – que são passageiros – das instituições, que são perenes. É preciso acreditar num processo de depuração – e que, um dia, o povo e o eleitor, votando bem, promoverão a verdadeira revolução das “mãos limpas”.

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