Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A imprensa no túnel do tempo

A imprensa de hoje nunca se pareceu tanto com aqueles panfletos enviesados que nos primórdios se chamavam de jornal

As caricaturas mais primárias do que se conhecia como jornalismo incipiente – fosse pela falta de independência num rincão, fosse pelos estágios iniciais do ofício – estão de volta. Por incrível que pareça, com toda a revolução digital, todo o avanço do cosmopolitismo, toda literatura de glória das grandes reportagens independentes, a imprensa de hoje nunca se pareceu tanto com aqueles panfletos enviesados que nos primórdios se chamavam de jornal.

Máquina de escrever – Foto: PixabayMáquina de escrever – Foto: Pixabay

A imprensa arcaica era, antes de tudo, imagem e semelhança do dono. Vivia naquela fronteira cinzenta entre propósitos supostamente de utilidade pública e conteúdo voltado majoritariamente para interesses privados. Distorção de fatos para beneficiar um político que apoiasse o jornal, criação de pautas artificiais para ajudar a vender determinado produto que anunciaria no veículo, incentivo a modismos comportamentais que abrissem oportunidades comerciais – business fantasiado de sociologia.

Hoje a imprensa voltou a ser uma prateleira de supermercado. Imprensa no sentido amplo – TV, impressos, jornais digitais, revistas, rádios, sites, etc. A esmagadora maioria do conteúdo publicado está vendendo descaradamente alguma coisa – com a diferença de que o supermercado ampliou proverbialmente o seu estoque. Se antigamente uma matéria “jornalística” sobre acne poderia estar vendendo determinado creme de barbear, hoje uma “reportagem” sobre esporte pode estar vendendo uma causa politicamente correta – dessas que enriquecem a indústria da demagogia.

A quantidade de pautas sobre os “direitos” de atletas trans competirem entre as mulheres é espantosa. Evidentemente estamos longe de um juízo consistente sobre o que é justo e o que não é justo – esportivamente – nesse tipo de “inclusão”, que frequentemente exclui mulheres (sem que se ouçam brados feministas como nos velhos tempos). Mas não se trata aqui de discutir esta ou aquela “causa” – muitas teoricamente justas. Interessa notar é que a imprensa virou um supermercado de virtudes descartáveis.

Há uma nova “ética” por dia para você aderir e chamar atenção para si e a sua grandeza moral. Há os inimigos do planeta para você execrar fazendo coro com alguma adolescente histriônica que veio colocar os adultos nos seus lugares. Há lições de vida embutidas no consumo de sanduíches. Há “redescobertas” étnicas para criar novos vilões históricos – num enredo sob medida para lustrar os novos currículos de escolas moderninhas, nas várias modalidades de estigmatização do homem branco que irão abarrotar seus cofres capitalistas envernizados de revolução.

Vamos ver até onde irá durar essa onda mercadológica moralista e reacionária. Não há dúvida de que há um público expressivo ansioso para que a imprensa volte a ser imprensa.

Loading...