Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A lição dos desistentes

Vamos repetir a palavra mais importante escrita até aqui, entre parênteses na primeira frase: risos

João Doria e Sergio Moro protagonizaram (risos) parte considerável do debate sobre sucessão presidencial nos últimos dois anos. Hoje o que se passa é que Moro tenta no máximo um jeito de se candidatar ao Senado e Doria anunciou que sai da vida pública e volta para a privada. Os dois chegaram a piscar os olhinhos um para o outro como se sua união pudesse realmente representar uma força significativa na “terceira via”. Vamos repetir a palavra mais importante escrita até aqui, entre parênteses na primeira frase: risos.

João Doria renunciou à presidência da República – Foto: Reprodução/ InstagramJoão Doria renunciou à presidência da República – Foto: Reprodução/ Instagram

Muitos risos. Gargalhadas. Gargalhadas amargas de todos os que percebem a impostura que tomou conta do que antigamente se chamava de política. Para quem ainda não entendeu: antibolsonarismo não é plataforma. Por maiores que fossem as divergências políticas, a história sempre registrou embates mais consistentes do que os atuais. Nos anos 80, por exemplo, os que se opunham ao regime militar reuniram seus propósitos para subsidiar a Constituição de 1988. Não interessa aqui dizer o que era bom e o que era ruim nisso tudo. Apenas assinalar o que podia ser chamado de movimento político de oposição. Isso não existe hoje (infelizmente). Alegorias antibolsonaristas não são oposição.

Doria apoiou Bolsonaro em 2018 e depois, no seu antibolsonarismo desvairado e inútil, chegou a pedir a Paulo Guedes que abandonasse o governo no auge da pandemia – logo após o pedido de demissão de Sergio Moro. Isso foi relatado pelo próprio Guedes e Doria nunca desmentiu. Ou seja: um sujeito que dizia apoiar a agenda liberal tocada por Guedes – e que fez campanha para Bolsonaro – mandou para o espaço os seus próprios compromissos com o que dizia ser a sua agenda para o país e embarcou numa sanha cega de sabotagem, antes de voltar para casa. Doria é um emblema da impostura.

E Sergio Moro é outro – talvez ainda pior, considerando-se os bons serviços prestados pelo ex-juiz na Operação Lava Jato. Esse aí se despiu de tudo, tudo mesmo, para surfar no “antibolsonarismo” milagroso, o objeto do desejo dos aventureiros modernos. Vai ver recebeu também um telefonema como o que Paulo Guedes relatou, quem sabe? Sai dessa confusão e vem viver confortavelmente no colo da imprensa decadente que sempre te detonou, vem curtir as facilidades das fundações muito ricas que fazem proselitismo politicamente correto – enfim, larga essa vida dura e vem ser um bonequinho do bem bom… O que aconteceu de fato ninguém sabe, mas não é tão difícil imaginar.

Disse que saiu do governo por motivo de interferência presidencial na Polícia Federal – o que nunca conseguiu demonstrar. Virou parceiro do Mamãe Falei. É isso a oposição política brasileira hoje – ou seja, um gemido oportunista.

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