Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A morte do poder público

Bruno Covas e seus parceiros de passarela vivem disso: se fantasiar de progressistas, portanto bondosos, sensíveis

A liberação de R$ 33 milhões pelo prefeito de São Paulo, Bruno Covas, para 46 escolas de samba e blocos carnavalescos seria um ato discutível se tivesse havido Carnaval. Tendo sido cancelada a festa (pelo próprio prefeito), o assunto se move para outra esfera. Decida você que esfera seria essa.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/NDO prefeito de São Paulo, Bruno Covas – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/ND

Uma hipótese: seria a esfera da extinção do poder público. Exatamente isso: o poder público acabou. O que ficou no lugar dele foi uma butique de bondades que só interessam ao vendedor.

Não que dar dinheiro para um Carnaval inexistente seja um negócio privado do prefeito. Isso estaria em outra esfera (se foi a que você decidiu avaliar, fique à vontade). A nossa hipótese é de que a política virou uma passarela fashion. Não interessa o que a autoridade faz, mas o que ela afeta.

Bruno Covas é bonzinho com os artistas carnavalescos, ou com os foliões, ou com o sindicato da alegria – enfim, use o eufemismo que quiser. Assim ele ganha uma determinada estampa que o torna útil para outros setores que também cultivam o objetivo particular de parecer sensíveis ao povo e à arte – e assim uma mão vai lavando a outra, uma afetação vai alimentando a outra, compondo essa generosa passarela de aparências que dão um vidão aos que desfilam nela fingindo estar fazendo o bem para a coletividade.

Foi assim que surgiram nas luzes de pare/siga do trânsito em São Paulo imagens de um punho cerrado. Não, não tinha nada a ver com o que os pedestres, os carros, as motos ou as bicicletas deveriam fazer ou deixar de fazer na via pública. O espaço da sinalização para a segurança e a organização do trânsito na megalópole estava só dando carona a um panfletinho do sujeito que foi eleito para gerir a vida em sociedade de alguns milhões de pessoas.

Bruno Covas achou fofo, descolado, charmoso, “in”, usar o dinheiro do contribuinte e o equipamento destinado a ordenar o espaço público para se fantasiar de militante racial. E ficou tudo bem. É ou não é generosa, essa passarela?

Não se trata aqui de apontar o neto de Mario Covas como o vilão dessa palhaçada. Ele é só um dos símbolos mais caricatos do desfile demagógico. É o autor do famoso recital mórbido sobre compras de urnas funerárias, sacos para cadáveres, etc, que tranca a sua cidade no fim de semana e vai assistir ao jogo do seu time no Maracanã, no meio de 2,5 mil pessoas, dizendo que aquilo é “direito dele”. Ou seja, um personagem pedagógico para ilustrar a hipocrisia.

Mas sempre aparece algum inocente útil para gritar: “É porque ele é de esquerda!” Pronto. Bruninho está salvo. Ele e seus parceiros de passarela vivem disso: se fantasiar de progressistas, portanto bondosos, sensíveis, conscientes. E ainda vão poder gritar contra “a onda de ódio da direita”. Enfim, uma vida mansa.

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