Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A morte e a morte de Tancredo Neves

Tancredo Neves jamais faria o papel de guarda-costas do Supremo Tribunal Federal

Rodrigo Pacheco citando Tancredo Neves é a prova de que a política brasileira virou piada (de mau gosto). Rodrigo Pacheco é o personagem que atualmente preside o Senado Federal e já demonstrou ser um não-político – portanto o exato oposto de Tancredo, um dos políticos mais hábeis da história do país. Tancredo Neves jamais faria o papel de guarda-costas do Supremo Tribunal Federal.

Rodrigo Pacheco é o presidente do Senado Federal – Foto: Agência Brasil/NDRodrigo Pacheco é o presidente do Senado Federal – Foto: Agência Brasil/ND

Não é que Rodrigo Pacheco faça esse papel discretamente. Ele o faz ostensivamente – parecendo de fato acreditar que ninguém está vendo. É o primeiro mineiro espalhafatoso da história política nacional. Espalhafatoso e sem-noção, porque citar Tancredo Neves achando que ser conterrâneo é credencial passa de todos os limites da falta de discernimento.

O país vive uma encruzilhada sem precedentes em que os integrantes da máxima corte resolveram fazer uma experiência, por assim dizer, absolutista. De como a polícia deve agir até o que um parlamentar pode dizer, eles resolveram deliberar sobre tudo. Deliberar, não. Resolveram mandar em tudo mesmo. E contam com dois lastros principais – além da desinibição: uma imprensa que aprova tudo que sai do STF fingindo combater o fascismo e um Senado subserviente que finge estar lutando contra os “ataques ao Judiciário”.

Esse é o texto de Rodrigo Pacheco, se achando sutil com um cocar de abacaxis na cabeça. Para completar a sua noção de sutileza – que faria Tancredo corar – o atual presidente do Senado resolveu barrar no grito uma iniciativa até modesta de um grupo de senadores – que propôs convites a dois integrantes do Supremo para que fossem ao Congresso dialogar sobre algumas de suas decisões recentes. Mesmo com eminentes juristas apontando atos em desacordo com a Constituição e até um ministro da própria Corte tendo denominado como “inquérito do fim do mundo” um dos expedientes de seus colegas, Pacheco simplesmente jogou no lixo a proposição dos convites, sem justificar ou fundamentar a sua decisão extrema. Com ele na presidência do Senado, aparentemente, os integrantes do STF estão acima das regras da democracia.

Tancredo Neves fez história pelo menos duas vezes – no início dos anos 60 e no início dos 80 – e não foi agredindo a democracia com a aplicação de regras não escritas. Ao contrário. A ação de Tancredo sempre esteve baseada no respeito às diferenças. Foi assim que ele construiu seu patrimônio de credibilidade, com um poder de interlocução que abrangia todo o espectro político. Ele tinha passaporte diplomático na política brasileira – e conquistou essa condição justamente por não cair na tentação de estigmatizar uns para se aliar a outros.

Dizem que os mineiros votaram no novato Rodrigo Pacheco para se livrar de Dilma Rousseff. Pelas reações que se tem visto na opinião pública, o eleitor de Minas Gerais parece estar compreendendo que sua escolha na última eleição era, na verdade, entre duas Dilmas.

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