Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A nova proclamação da República

Pelo que se verifica na vida nacional nos dias de hoje, a velha República Federativa do Brasil é só um retrato amarelado na parede

O que aprendemos a chamar de República não existe mais. Pelo que se verifica na vida nacional nos dias de hoje, a velha República Federativa do Brasil é só um retrato amarelado na parede. Faliu, provavelmente por fadiga de material.

Bandeira do Brasil – Foto: PixabayBandeira do Brasil – Foto: Pixabay

É assim mesmo, as coisas ficam velhas e saem de uso. Vamos então proclamar uma República novinha em folha, listando os princípios que a regerão – em consonância com os novos valores vigentes no país:

1. O novo conceito de herói nacional passa a seguir atributos diferenciados. Um senador que seja alvo de uma penca de inquéritos, por exemplo, e que esteja associado às mais obscuras práticas da política nacional é a pessoa certa para receber a investidura de guardião da ética e da vida;

2. Usar uma crise de saúde pública para fazer política passa a ser não só aceitável, como recomendável e louvável;

3. Está extinta a velha imprensa. O principal meio de comunicação passa a ser uma coisa chamada consórcio, que reúne uns propagadores de aluguel para combinar as ondas de mistificação e perseguição que colocarão em pauta (fantasiadas de jornalismo) em benefício de interesses particulares – que eles não assumirão publicamente, porque isso não é da conta de ninguém;

4. É removido o entulho autoritário da velha Lei de Segurança Nacional, substituída por uma lei moderna e boazinha que manda para o xadrez quem falar demais ou ficar insistindo em fazer perguntas inconvenientes sobre temas que os luminares da novíssima República já cansaram de avisar que estão proibidos;

5. Ladrão que tenha roubado a população no atacado passa a ser considerado inocente se houver cara de pau suficiente no Poder Judiciário e se as instituições nacionais aceitarem isso caladas;

6. Caso um ladrão seja descondenado com sucesso, ele deverá passar a figurar obrigatoriamente na primeira posição de todas as pesquisas eleitorais, como forma de reparação humanitária da estigmatização que lhe foi imposta durante todo o período em que foi chamado de ladrão;

7. Não tem o menor problema se esse ladrão não conseguir colocar os pés na rua por ser uma criatura detestada pelo povo. Na novíssima República, a reputação advém das pesquisas amigas, das togas compreensivas e do consórcio;

8. Vacina boa é vacina no braço. Na novíssima República, a ciência advém da propaganda;

9. Quem precisar se espremer em transporte público não precisa seguir distanciamento social nem apresentar cartãozinho de nada. O importante é não se atrasar para o serviço e não deixar os empáticos perfumados na mão;

10. A novíssima República não é nada disso que você está pensando. É um regime pródigo que nasceu por acaso no corpo de uma fanfarra.

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