Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A novela errada

Quem tiver ainda a ousadia de pegar o controle remoto (ou o mouse ou a pontinha do próprio dedo) pode pelo menos imaginar coisas um pouco diferentes na tela

Como dizia Erasmo Carlos naquela música que invertia tudo, o Brasil não gosta de novela. Ou seja: ama. Tudo bem, quando a novela é boa. Lula como concorrente a protagonista do Brasil do futuro não vale a pena ver de novo, é claro.

Mas os brasileiros são tão fanáticos pelo gênero que consomem de tudo – mesmo novela ruim. É só botar no ar que o país passa a acompanhar imediatamente – com comentários, debates, confronto de emoções, enfim, embarca no enredo como se fosse o seu destino inexorável. Tem gosto para tudo.

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está elegível para 2022 – Foto: Divulgacão/Paulo Alceu/NDEx-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está elegível para 2022 – Foto: Divulgacão/Paulo Alceu/ND

Aos que ainda não renunciaram ao seu poder de mudar de canal quando a programação oferecida é duvidosa (para dizer o mínimo), vamos fazer aqui um exercício despretensioso de opções de enredo a essa marcha fúnebre rumo a 2022 – que requenta Lula e outras velhas assombrações da política nacional como cardápio do dia.

Quem tiver ainda a ousadia de pegar o controle remoto (ou o mouse ou a pontinha do próprio dedo) pode pelo menos imaginar coisas um pouco diferentes na tela.

Vamos lá: 1. Em vez de contar quantos vaiaram Lula em Brasília, por que não contar quantos aeroportos foram leiloados? 2. Com quantas CPIs do Renan Calheiros se faz uma reforma tributária? O que aconteceria se o tempo dedicado pelo parlamento à nova coleção de fofocas de Mandetta e eventos similares fosse empregado no cronograma da reforma administrativa? 3. O que você acha mais urgente: o jogral da dupla Renan & Randolfe ou a tramitação da emenda autorizando a prisão após condenação em segunda instância? 4. Acredite no seu controle remoto, Brasil. Tire a Lava Jato do canal do STF, com aquele dramalhão de Gilmar chorando em homenagem ao advogado de Lula, e dê audiência à investigação pela força-tarefa da mamata da Fecomércio, da triangulação com a Oi para comprar o sítio de Atibaia, da venda de medidas provisórias para montadoras, da negociata com o BNDES em Angola. Ou seja: desligue o canal onde Lula é um ladrão anistiado e passe para o canal onde Lula é um ladrão investigado; 5. Tudo bem que você ache exótico o ex-presidiário João Santana ensinando Ciro Gomes a mentir como Lula (como se precisasse), mas em outro canal tem a agenda de capitalização/privatização da Eletrobras esperando o seu ibope para avançar no Congresso.

Enquanto suas excelências tiverem a sensação de que você não está olhando, continuarão sentadas em cima das reformas do estado brasileiro, qual um Rodrigo Maia no sofá depois da feijoada. Como se vê, tudo é uma questão de ponto de vista.

Sempre existe a possibilidade de focar na novela errada – são as que têm o melhor marketing – e ficar aí batendo boca na internet sobre a última malcriação das cassandras. Mas não custa lembrar e repetir: o controle está na sua mão

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