Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


A pátria que espero

A minha pátria não é a mesma desses poderosos que estão na saliva de sórdidos delatores, tão corruptos quanto os seus denunciados

Não reconheço como “a minha pátria” esta terra de instituições humanas tão pobres em ética, em compostura, em humanismo. A minha pátria não é a mesma desses poderosos que estão na saliva de sórdidos delatores, tão corruptos quanto os seus denunciados – um dia “aliados” na infame missão de assaltar os brasileiros de bem.

Há 40 anos o Brasil se despedia de um dos maiores artistas brasileiros, Vinícius de Moraes. Ele é dono de obras na literatura, na música, no teatro e no cinema.Há 40 anos o Brasil se despedia de um dos maiores artistas brasileiros, Vinícius de Moraes. Ele é dono de obras na literatura, na música, no teatro e no cinema.

A minha pátria não é a que amarga todos os dias um pote de fel, as orelhas rubras de tanta vergonha. Mesmo sendo tais delatores criminosos pós-graduados, o que dizer dos “representantes do povo” (e até magistrados), que deles se tornaram reféns?

A minha pátria não é a mesma de certos agentes dos poderes do Estado, que se instalaram em Brasília e se deixaram corromper pela corrosão do caráter e pela degenerescência moral.

A minha bela pátria do Brasil não é a roubalheira nos recursos de saúde, nos respiradores “comprados” e não entregues, a maracutaia dos propinodutos, a contínua chantagem das “bases aliadas”, exigindo vantagens para não votar contra os interesses do país. Não.

A minha pátria é a de Vinicius de Moraes nos versos imortais de “Pátria Minha”:“Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa/ Que brinca em teus cabelos e te alisa/ Pátria minha, e perfuma o teu chão…/Que vontade me vem de adormecer-me entre teus doces montes, Pátria minha/ Atento à fome em tuas entranhas/ E ao batuque em teu coração/ Não te direi o nome, Pátria minha/Teu nome é pátria amada, é patriazinha, não rima com mãe gentil/ Vives em mim como uma filha/ Uma ilha de ternura: a Ilha Brasil, talvez…”

A nossa pátria não convive bem com a cleptocracia, nem aceita a vitória da corrupção.Este Brasil, vergastado por um vírus apocalíptico, ainda assiste a prevalência do crime sobre as leis, transformando quem era bandido em herói, e quem era virtuoso em marginal.

É o velho Brasil que ressuscita, para desgosto dos que pagam os impostos com correção.Ao povo, resta viver numa desolada esquina chamada “esperança”.

Não podemos viver nem aceitar regimes como o de “1984” (George Orwell), em que em nome da democracia adotava-se a ditadura. Reescrevia-se a história com o disfarce da mentira repetida – que, de tanto repetir-se, virava uma verdade.

Invertiam-se todos os valores e conceitos. “Guerra” passava a significar paz. “Mentira” era verdade. “Morte” era vida. Uma pátria que seja amada não sobrevive a uma virose moral como a que transforma uma democracia em tirania.

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