Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A quem a democracia obedece

É normal que a nova escalação dessa comissão operada pelos cirurgiões do STF/TSE atue de forma tão republicana e idônea quanto seus padrinhos mentores

É normal ministros do Supremo Tribunal Federal atravessarem a rua para dizer aos donos dos partidos no Congresso Nacional o que eles devem derrubar.

É normal que donos de partidos recebam essa influência amiga daqueles que reabilitaram eleitoralmente o bom ladrão e saiam substituindo deputados na comissão da Câmara que decide o futuro das eleições no país.

Congresso Nacional – Foto: Arquivo/Agência BrasilCongresso Nacional – Foto: Arquivo/Agência Brasil

É normal que deputados que haviam acompanhado as audiências técnicas da comissão especial sobre vulnerabilidades do sistema de urnas eletrônicas sejam convidados a se retirar do recinto e calar a sua boca sobre a matéria em questão.

É normal que os deputados substitutos – colocados em campo aos 45 do segundo tempo graças à sugestão empática dos companheiros togados – assumam suas posições em campo de forma diametralmente oposta aos seus correligionários substituídos.

É normal que os novos titulares – não tendo acompanhado a exposição dos técnicos sobre o que significa o voto auditável e como isso inibe fraudes eleitorais – se coloquem automática e intransigentemente contra o voto auditável e fim de papo.

É normal que a nova escalação dessa comissão operada pelos cirurgiões do STF/TSE atue de forma tão republicana e idônea quanto seus padrinhos mentores.

É normal que jornalistas, professores, influenciadores, intelectuais e companhia perfumada saiam aos gritos e em bloco afirmando que o sistema eleitoral em vigor no Brasil, no Butão e em Bangladesh é perfeito, não tem problema nenhum, quem ganhou, ganhou, quem perdeu, perdeu e calem a boca desses milhões de milicianos que querem aperfeiçoar o sistema.

É normal que a nova maioria da comissão do voto auditável, resultante da engenharia genética de um poder sobre outro, aproveite a gritaria e saia correndo contra o tempo (e contra o povo) para votar e enterrar o voto auditável ao apagar das luzes antes do recesso parlamentar. É normal tudo isso ou não é?

Normalíssimo. Também é normal que os que entram no jogo com dedo no olho e chute na gengiva fiquem ofendidos com os que param na frente deles informando que não querem brincar assim.

É normal que os gênios da articulação de gabinete fiquem impacientes com a suspensão do enterro de uma medida que interessa a grande parte da sociedade. É normal que os libertadores do maior criminoso da política nacional tenham alergia a uma eleição auditável.

É normal que esse criminoso se manifeste ostensivamente contra o voto auditável, porque ladrão que se preza não tem nada a esconder (fora o roubo).É normal que o povo decida entrar em campo para mostrar à malandragem de gabinete a quem a democracia obedece.

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