Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A semidemocracia

Chega de mesmice. Se estamos já no semipresidencialismo, por que não evoluirmos logo para a semidemocracia?

O semipresidencialismo, regime que atualmente vigora no Brasil segundo o ministro do STF Dias Toffoli, é só o começo de uma guinada virtuosa. E foi muito bom que esse anúncio tivesse sido feito nos doces ares portugueses, sem as ondas de ódio que tomam conta do Brasil.

Que isso fique instituído: sempre que os ministros do Supremo Tribunal Federal tiverem boas notícias como essa a dar ao povo brasileiro, que o façam por meio de palestras em Portugal, entre uma degustação e outra – porque em Portugal se sabe o que é o bom gosto à mesa. E é da boa mesa que advêm as boas ideias.

O ministro do STF, Dias Toffoli – Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/NDO ministro do STF, Dias Toffoli – Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/ND

Mesmo estando distantes do centro gastronômico/filosófico das supremas decisões, podemos aproveitar essa onda virtuosa para tentar contribuir com proposições inovadoras. Chega de mesmice. Se estamos já no semipresidencialismo, por que não evoluirmos logo para a semidemocracia?

Se uma simples pizza pode cortar sabores pela metade, por que a política não comportaria a mesma flexibilidade? Imagine um Congresso semimussarela, semicalabresa. As votações ficariam muito mais saborosas – como são os jantares em Portugal, pátria da suprema imaginação.Na semidemocracia tudo será relativo, como diria Albert Einstein.

Se a lei te beneficiar, você cumpre. Se te atrapalhar, você ignora. Olha que maravilha. Finalmente as leis serão aproveitadas no que elas têm de bom, sem as amarras excessivas que muitas vezes o aparato legal impõe aos bem intencionados, incapazes de fazer mal a uma mosca azul.

A lei garante a livre expressão. Mas e se você estiver me incomodando com o que você fala? Aí entra a relatividade da semidemocracia. Eu calo a sua boca, corrigindo essa falha da lei que não esclareceu a matéria direito: a liberdade é plena desde que não me chateie.

A escola de samba Unidos da Semidemocracia fará o desfile de abertura dos novos tempos. Vai ser uma farra. Aglomeração geral sem culpa incitada por prefeitos fanfarrões (chega de gente sisuda) garantindo que o passaporte fascista é um passe de mágica contra o contágio que a ciência não barra.

Na semidemocracia é assim: você descobre o lado bom do fascismo e o lado inútil da ciência. A relativização das coisas dará mais espaço para a alegria e a propaganda em detrimento da lógica – que sempre foi uma estraga-prazeres. Bem-vindo à folia da semidemocracia. Talvez isso dê um pouco de ressaca – mas não se pode querer tudo.

Você vai ter que escolher entre ser feliz como se não houvesse amanhã e continuar aí todo limitado pela velha democracia, cheia de obrigações que você nunca entendeu mesmo pra que servem. Alguma dúvida? A Constituição já estava toda mofada mesmo. Vamos deixá-la pra lá. A semidemocracia é um estado de espírito

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