Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A sua vida prejudica o planeta

Faça direito o seu papel, não tropece no cenário e torça para o autor não resolver matar o seu personagem

Se você está achando tudo confuso, calma que vem mais. Prepare-se para discutir os extraterrestres. Não acha que é prioridade? Ora, quem é você para achar alguma coisa? Não entendeu ainda que estamos todos num novelão? Capítulo tal, cena tal e vamos nessa. Faça direito o seu papel, não tropece no cenário e torça para o autor não resolver matar o seu personagem.

Ações das pessoas no planeta – Foto: PixabayAções das pessoas no planeta – Foto: Pixabay

O assunto do momento será aquele que esse consórcio de marqueteiros fantasiados de missionários, de mecenas das virtudes descartáveis e de almas penadas da cracolândia digital convencionar, com base nessa estranha química de futilidades contagiosas que forma um poderoso consenso sobre o nada.

Um governador que tranca a população como se estivesse na Coreia do Norte, decide qual gôndola de supermercado o cidadão pode acessar e massacra a liberdade com expressão angelical anuncia que é gay. E lá vai o exército de distraídos discutir a vida sexual do tiranete. É o script dado, não adianta espernear. Então é isso.

Você estava ali pensando na reconstrução de um país depenado por uma quadrilha fantasiada de altruísta, tentando achar uma brecha para seguir o seu caminho na floresta de demagogias tão estúpidas quanto lucrativas, tentando se esquivar dos carimbos de racista, homofóbico, terror dos animais e das plantas, quando veio o vírus.

Você até desconfiou daquele jeito meio exuberante como passaram a repetir a designação “novo coronavírus” – algo que parecia remeter a uma campanha de lançamento de um novo creme dental ou programa de computador. E era.

Não software nem pasta de dente, mas uma parafernália propagandística novinha em folha, embalada vistosamente como ética. Fora a tragédia real e as tentativas concretas de se proteger dela, você recebeu um portfólio de palavrinhas voadoras com poderes mágicos para os que as pronunciassem – e trevas para os que não as pronunciassem.

Lockdown, empatia, fique em casa, negacionista, máscara 1, 2 e 3, ciência, ciência, ciência (nova e bela denominação para slogans de fundo de quintal), vacina boa é vacina no braço (estudo a gente vê depois, agora estamos com pressa), iluminismo contra terraplanismo e grande elenco. Deu certo. Até hipóteses legítimas de tratamento experimental viraram blasfêmia – porque a nova ordem é só mencionar o que o império nerd te deixa repetir.

E os extraterrestres? Calma que eles vêm aí. É logo depois do “lockdown do clima” – que vai te explicar que a sua vida põe o planeta em risco. Mas não deixe te roubarem a sua liberdade de escolha. Você precisa ter garantido o seu direito de optar entre o grupo dos marcianos e o dos lunáticos.

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