Alexandre Garcia

Jornalista com décadas de atuação na TV e rádio, como apresentador, repórter, comentarista e diretor de jornalismo. A coluna aborda temas do cotidiano, entre eles comportamento, política e economia.


Alexandre Garcia: “Lava-ficha suja”

Agora, o próprio Lula deixou de ser inelegível e pode disputar a eleição presidencial do ano que vem, se ele quiser

De repente, um único juiz decide que estão anulados processos por corrupção do ex-presidente Lula, porque estariam na vara errada. Vale dizer, anuladas as condenações que haviam passado pelo tribunal revisor, o da 4ª Região, em Porto Alegre (RS), e por uma terceira instância no STJ.

Fachada do Supremo Ttribunal Federal – Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/NDFachada do Supremo Ttribunal Federal – Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/ND

Ao mesmo tempo, se lança a versão de que seria para isentar Sérgio Moro de suspeição. Se assim fosse, bastaria anular o do triplex, pois a condenação do caso de Atibaia é da juíza Gabriela Hardt. A decisão de Edson Fachin ainda carece de muitas explicações, sobre como julgou.

Fico me perguntando se a 13ª Vara não era a apropriada, por que tudo continuou, por cinco anos? A Lava Jato, símbolo da reação do país contra uma gigantesca corrupção institucionalizada, foi sendo desmontada quando o Supremo decidiu separar a Petrobras de outros casos. Fachin criou uma hora da verdade para Lula.

Ele deixa de ser o impedido, o condenado, a vítima, para ser o beneficiado por um ministro escolhido por Dilma, ex-advogado do MST, próximo à CUT; suscita mais debate sobre o uso da Petrobras, já que o assunto se atualizou, mas, além de tudo, terá que enfrentar Bolsonaro, que já ocupou o lugar que era dele, Lula – o de ser uma espécie de esperança do povo, e que o povo chama de mito. Lula parece não ter como recusar o desafio que Fachin lhe joga no colo. O PT já não precisa repetir o candidato que chamavam de poste.

Agora, o próprio Lula deixou de ser inelegível e pode disputar a eleição presidencial do ano que vem, se ele quiser. A esquerda pode continuar fracionada, com Ciro e Boulos, ou juntar-se a Lula, criando uma frente para evitar a reeleição de Bolsonaro.

Outros personagens da corrida presidencial devem estar desolados, como Sérgio Moro e João Dória. Mas, sobretudo, fico imaginando o que pensa o cidadão comum sobre Justiça, quando a decisão de um juiz do Supremo se junta ao auge de uma pandemia que tira vidas, emprego e renda.