Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


Anulado o grito do Ipiranga

O processo será remetido a um juiz de São Bernardo do Campo que entende tudo de metrópole, colônia, essas coisas

O Tribunal Magistral Federal decidiu que a proclamação da Independência do Brasil não valeu. D. Pedro não era o juiz natural do processo. Aliás, quem D. Pedro pensava que era? Por um erro de competência, está anulada a separação de Portugal. O processo será remetido a um juiz de São Bernardo do Campo que entende tudo de metrópole, colônia, essas coisas.

Ex´presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva – Foto: Divulgacão/Paulo Alceu/NDEx´presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva – Foto: Divulgacão/Paulo Alceu/ND

Já está sendo investigado, por exemplo, se na margem do Ipiranga vigorava a lei do silêncio. Se confirmada essa hipótese, aquele grito será considerado infração contra a ordem pública, sujeita a multa de até três salários mínimos. Mais preocupante é o conteúdo: “independência ou morte” provavelmente será sentenciado como discurso de ódio, acarretando o banimento de todos os perfis de D. Pedro I nas redes sociais.

A decisão do Tribunal Magistral Federal reparou um erro histórico, mas gerou algumas controvérsias – o que é inevitável em toda depuração. Os portugueses e os índios estão discutindo, por exemplo, quem vai ficar com Brasília. Que vai ter que mudar de nome, porque esse negócio de Brasil foi um sonho.

O mais provável é que seja rebatizada como Cidade das Togas, em homenagem à corte que deixou a de D. João VI no chinelo. A capital volta para Lisboa, para onde serão levadas as taças das cinco Copas do Mundo. Quem tiver usado o nome “Brasil” nesses 200 anos será enquadrado no inquérito das fake news. A não ser os que possam provar que estavam se referindo ao pau, não ao país.

Fora isso fica praticamente tudo como está, com pequenas alterações: o processo de impeachment de Collor está anulado porque não foi dado amplo direito de defesa ao PC Farias, que segundo seus comparsas não fez nada de mais; com essa anulação fica invalidado também o Plano Real, que torna-se flagrantemente ilegal por ter sido editado num governo decorrente do golpe contra Collor e PC (a moeda volta a se chamar cruzeiro e a inflação volta aos três dígitos); o impeachment de Dilma Rousseff também está anulado, porque se isso aqui nem país é, só uma colônia muito metida a besta pode se atrever a impichar alguém.

O Tribunal Magistral Federal já está tomando as providências para que os colonizados do ex-Brasil indenizem por danos imorais Dilma, Lula (outra vítima de um juiz antinatural que não entende a finalidade cívica do roubo) e demais membros da quadrilha injustiçada por 200 anos de conspiração dessa gente má, insensível, chata, boba, feia e cheia de regrinhas que não servem para nada – a não ser para inspirar o bailado das togas e dos advogados espertos que sobrevoam alegremente os trouxas.

Mas não pense que essa revisão histórica foi fácil. A salvação só foi possível graças a uma exuberante elite intelectual que teve a coragem de apoiar ostensivamente o padrão civilizatório do bom ladrão.

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