Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


As eleições mais importantes para a nação

Vivemos as eleições da tevê: horário gratuito, partidos sem torcida e candidatos ainda caprichando no “marketing”.

O dia era 3 de outubro. Eram as eleições dos anos 50 – com cédulas de papel, distribuídas por partidos e candidatos. Viveremos em novembro as eleições mais importantes da Federação – a municipal, pois é no município que moramos e a administração toma suas providências executivas. Quem melhor sabe onde localizar uma ponte, um túnel, programar uma campanha de saúde? Brasília ou a cidade-sede do problema?

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já organizou os procedimentos das eleições em 2020 – Foto: José Cruz/Agência Brasil/Divulgação/ND

Vivemos as eleições da tevê: horário gratuito, partidos sem torcida e candidatos ainda caprichando no “marketing”.

Houve o tempo das eleições pelo rádio. Emissoras e jornais “do partido” faziam as vezes dos marqueteiros, puxando a brasa para a sua chapa. Havia partidos com torcida e reconhecimento popular, campanhas e comícios apaixonados. E, sobretudo, as campanhas eram modestas e, por isso, não se comparavam com a abjeta corrupção de hoje.

Na Ilha, os partidos que dominavam a cena, assim como as escolas de samba, eram apenas dois. Os passistas da Copa Lord sambavam pelo PSD e os da Protegidos rebolavam pela UDN, numa democracia bipartidária e saudavelmente provinciana. Abertas as urnas, os votos eram cantados ao microfone das duas rádios “oficiais”, de forma  rigorosamente parcial.

As emissoras orientavam seu “departamento musical” para celebrar as vitórias ou camuflar as derrotas. Durante os primeiros quatro dias, cada uma das “rádio-apuradoras” – a pessedista Guarujá ou a udenista Diário da Manhã –  proclamava a vitória do seu partido. Até que a realidade começasse a corrigir os boletins e a baixar a primeira partícula de verdade na poeira da dissimulação.

A guerra da informação fazia parte da estratégia  de vitória, ainda que ela terminasse em derrota. “Ler” resultados era uma tarefa para connaisseurs. Para o bom entendedor, era essencial prestar atenção no score musical das emissoras. Ali residiam algumas mensagens “cifradas”.

Com a vitória no horizonte, o contra-regra da rádio vencedora empilhava no braço da sua “eletrola” as bolachas carnavalescas, entre as quais a gravação que popularizou Dorival Caymmi no  Carnaval de 1956,”Eu vou pra Maracangalha” ou “Cachaça não é água” do baiano Trigueiros Filho,  um sucesso dos anos 40.

Era a senha para a partida da barca e para a gozação dos vencedores. A “nau” levantava ferros do Miramar, levando a bordo os infelizes náufragos dos cargos em comissão, a turma dos “inconsoláveis” chorando a perda da boquinha.

***

Era um tempo melhor? Talvez fosse apenas diferente.

A democracia de calças curtas convivia com as oligarquias – poucos governando em nome de muitos. Hoje, vive-se uma cleptocracia  cheia de partidos e carente de ética e de ideias.  Cresce o desmazelo por uma correta representação popular e cultiva-se a adoração do poder pelo poder, com desprezo à alternância.