Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


Atolados no papo furado

FHC quer fingir que é possível esquecer isso – porque até aqui, pelo menos, não chegou a dizer que o crime compensa

Andei falando sobre o que me parecem erros de percepção gerados pela dicotomia burra direita x esquerda. Tratei especificamente da tese ignorante de que FHC e Lula são sócios de um projeto de hegemonia “esquerdista” e outros clichês primários que os devotos dessa dicotomia amam.

Ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula se encontram em almoço – Foto: Ricardo Steuckert/Reprodução/Redes SociaisEx-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula se encontram em almoço – Foto: Ricardo Steuckert/Reprodução/Redes Sociais

Dei o exemplo da maior reforma liberal da história contemporânea brasileira, na década de 1990, conduzida por Fernando Henrique apesar das tentativas de sabotagem de Lula. Não adianta.

Os fanáticos por esses rótulos fajutos (direita e esquerda) dão a vida para continuar vestindo orgulhosamente a camisa do seu clubinho – que dizem ser um repositório seguro das virtudes que os distinguem do clubinho do inimigo.

É claro que o motivo para entrar nesse assunto foi a vergonhosa declaração de apoio de FHC a Lula. Um vexame. Uma pirueta de sociólogo (mal dada). Um atentado à inteligência daqueles a quem Fernando Henrique acha que fala – e acha que pode convencer sobre a possibilidade de se tratar Lula como uma saída democrática para o Brasil.

Todos sabem – inclusive esse público afetado que FHC quer influenciar – que Lula é um ladrão. O próprio Lula sabe. E obviamente Fernando Henrique também.

A montagem do esquema na Petrobras (entre outros) com a nomeação e proteção dos diretores “certos” para operar os desvios em favor do PT e de Lula foi não apenas demonstrada, como confessada e teve vultosas quantias devolvidas. FHC quer fingir que é possível esquecer isso – porque até aqui, pelo menos, não chegou a dizer que o crime compensa.

Mas alguém dizer que isso é parte de uma orquestração “esquerdista” é grossa estupidez. Por que estou enfatizando isso? Porque se você não é capaz de identificar as ações que constroem, venham de onde vierem, você é uma presa tola e incurável da conversa fiada.

Vai passar a vida apostando num álbum de figurinhas supostamente ideológicas, condenado à eterna decepção com os heróis que afinal tinham um uniforme tão belo.

Fernando Henrique, esse que está aí fazendo um papelão ao tentar lavar a reputação de um ladrão, regeu a maior reforma liberal da história contemporânea – chamada na época de “neoliberal”, “de direita”, portanto o oposto do que esses teóricos da conspiração dizem que FHC sempre esteve fazendo (“construindo com Lula a hegemonia esquerdista” etc). Lula tentou dinamitar de todas as formas o Plano Real.

Privatizações, saneamento monetário, responsabilidade fiscal. Conquistas que beneficiam você até hoje – conquistas de liberdade, gestão e modernização. FHC não deu o a condução do plano para José Serra, o economista militante do PSDB. Montou uma equipe de excelência que venceu a invencível inflação.Isso foi um teatro montado com Lula? É muita vontade de ficar trocando figurinhas no atoleiro para sempre.

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