Rodrigo Constantino

Ele se define como "um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda politicamente correta".


Carrinho fora da área

Os investidores enxergam em Guedes o fiador da austeridade fiscal, e temem que Bolsonaro flerte com um rumo mais perdulário e populista

Onde há fumaça, há fogo. Mas às vezes pode ser que parte da imprensa veja uma enorme fumaceira onde há apenas um fósforo riscado. Creio que a “fritura” de Paulo Guedes esta semana tenha sido um desses casos.

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro – Foto: Arquivo/Marcos Corrêa/PRPaulo Guedes e Jair Bolsonaro – Foto: Arquivo/Marcos Corrêa/PR

Que a tensão foi real não há dúvidas. O presidente Bolsonaro “desautorizou” seu ministro em público, rejeitando o projeto do Renda Brasil por considerar que é inadequado “tirar dos pobres para dar aos paupérrimos”. Os mercados ficaram tensos, o dólar subiu e a bolsa caiu. Os investidores enxergam em Guedes o fiador da austeridade fiscal, e temem que Bolsonaro flerte com um rumo mais perdulário e populista.

Ao término da semana, porém, as coisas estavam bem mais tranquilas. Na “live” de quinta o presidente já tinha alinhado mais seu discurso ao do seu posto Ipiranga, reforçando a ideia de que é preciso respeitar os limites orçamentários e que o melhor programa social é o emprego, alertando que auxílio não pode ser aposentadoria. Bolsonaro reconheceu que o valor pode não ser muito para quem recebe, mas que é muito para quem paga, e rechaçou a narrativa de que é “nosso dinheiro”, lembrando que se trata de endividamento público.

Suas palavras foram música para os ouvidos responsáveis, e o dólar caiu forte na sexta, enquanto a bolsa subiu. Todos ficaram aliviados, e o próprio ministro brincou: “pô, presidente, carrinho, entrada perigosa, ainda bem que foi fora da área, se não era pênalti”. Foi um carrinho fora da área, uma falta sem maior gravidade.

Disse que todos ficaram aliviados, mas não é verdade. Uma turma ficou bastante decepcionada. Falo dos abutres que torcem contra o país só para ferrar com Bolsonaro. Estão num projeto de poder, nada mais, e não ligam para o estrago que uma saída de Guedes causaria. Pelo contrário: adotam a máxima de quanto pior, melhor. Foram esses que exageraram de propósito na dimensão da “fritura”, com alguns chegando a afirmar, de forma leviana, que já havia até carta de demissão assinada.

É lamentável a postura dessa ala da mídia e de certos “liberais”, que fazem vista grossa para os abusos arbitrários do STF só porque o alvo é Bolsonaro. Há uma patota realmente se esforçando para prejudicar o país. Mas Guedes é casca grossa, patriota e ciente de sua missão. E Bolsonaro, pelo visto, entende isso e tem juízo.

O Brasil precisa voltar aos trilhos das reformas, e a tensão entre presidente e ministro é natural até certo ponto. É o conflito da política com a economia. A diferença é que Bolsonaro e Guedes são mais espontâneos e transparentes, e isso causa desconforto em quem se acostumou com jogo de cena escondendo tensão de bastidores. Basta encontrar um ponto de equilíbrio e tudo ficará bem. Para a tristeza dos abutres, claro.