Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Carta ao Tancredo

O livro é uma joia gráfica que traz em seu recheio a história renascida diretamente do punho epistolar desses grandes personagens

Bem se pode viajar a bordo de um livro contendo gêneros da Literatura, ou redescobrindo sentimentos enfeixados em páginas que empilhem cartas de gente ilustre ou simples, revivendo e misturando emoções – a dos autores e a dos leitores.

Luiz Henrique Tancredo, jornalista e escritor, acaba de presentear a literatura catarinense e brasileira com esse belo ornamento escrito: o livro “Cartas Catarinenses”, nele garimpando 82 pepitas produzidas tanto por personalidades históricas como por gente comum, desde que os registros tenham como nexo a mágica da emoção.

Cartas – Foto: PixabayCartas – Foto: Pixabay

O livro é uma joia gráfica que traz em seu recheio a história renascida diretamente do punho epistolar desses grandes personagens. Tancredo produz com cirúrgica competência o relicário de uma coleção de depoimentos sérios ou hilários, cartas alegres ou dramáticas, já conhecidas ou só agora reveladas, como se um dos protagonistas, o médico Duarte Schutel, pudesse receber, intemporalmente, a resposta de seu texto 100 anos depois, já nos dias de hoje.

Todo livro bem nascido começa com um prefácio brilhante, como o de “Cartas Catarinenses”, assinado pelo estilo apurado e a prosa elegante do jornalista Marcílio Medeiros Filho (ex-O Estado e JB):

“O livro abre com uma seleta troca de cartas nas quais o imenso Cruz e Sousa aparece como remetente e “remetido”, nelas figurando sua mulher Gavita (Vivi), Virgílio Várzea, Horácio de Carvalho, Oscar Rosas, Germano Wendhausen, Carlos Jansen e a mãe do poeta, Carolina. São assuntos vários, entre os quais ofertas e pedidos de ajuda, misérias e angústias do grande poeta nascido em Desterro e morto nos confins de Minas com 36 anos”.

Dentre o “bouquet” de revelações epistolares destacam-se inúmeros outros textos, surpreendentes, como a carta assinada pelo poetíssimo Carlos Drummond de Andrade, impressionado com a “cultura e a inteligência” do professor catarinense Henrique da Silva Fontes.

Ou a divertida carta de um “homme-à-lettre”, como o jornalista e homem do mundo, Al Neto, ao seu melhor amigo e destinatário predileto Glauco Olinger, um patrimônio catarinense aos quase 100 anos. Confidencia ao amigo, literalmente, uma “cantada” dirigida em plena rua Felipe Schmidt a uma loura irresistível, cujo conteúdo só o livro “cura” a curiosidade do leitor.

A “trans-secular” carta de Duarte Schutel, político e médico, formado em tempos imperiais, expressa a analogia entre a missão do médico e a do sacerdote, cognominando o profissional como “o sacerdote da alma”. Cem anos depois, a historiadora Isa Vieira da Rosa Grisard, casada com o seu bisneto, o também médico Nelson Grisard, escreveu tocante resposta ao antepassado. Nesta carta “In Memoriam”, de 1999, elogiou:

– Seus escritos nos servem até hoje e lhes somos todos muito gratos. Tudo o que foi escrito pelo senhor nos foi e é importante e útil.

Pedro II, Victor Meirelles, Anita Garibaldi, Cruz e Sousa, Delminda Silveira, Fritz Muller, Othon Gama D’Eça, Hercílio Luz, Carl Hoepcke, Zilda Arns, Meyer Filho, Franklin Cascaes, Heloísa Sabin, Jorge Konder Bornhausen – cada carta catarinense com a sua revelação.

“Cartas” e a meritória pesquisa de Tancredo desnudam as almas catarinenses e confirmam o dito de Eça de Queirós:

– As cartas de um homem, sendo o produto quente e vibrante de sua vida, contêm mais ensino do que a sua filosofia, pois esta não inclui a emoção do espírito. Cartinha para o Tancredo: “Todo mundo gostou”.

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