Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Democracia bipolar

O surto de incivilidade dos sentimentos, um momento dominado pelo fel do pensamento único, que eterniza a baixa política

Em tempos de ruas cheias confunde-se democracia com polaridade – e o resultado é um banho de intolerância. A boa democracia é, com certeza, a transigência de aceitar a manifestação do outro. Este é por excelência o primeiro atributo democrático, expresso pela “convivência entre os contrários”.

Vivemos nesses dias de intolerância um outro surto que não o epidêmico. O surto de incivilidade dos sentimentos, um momento dominado pelo fel do pensamento único, que eterniza a baixa política.

Não é democrática a divisão de uma nação “entre os que não são como nós” e os que “pensam como eles” – Foto: Roberto Jayme/Divulgação/NDNão é democrática a divisão de uma nação “entre os que não são como nós” e os que “pensam como eles” – Foto: Roberto Jayme/Divulgação/ND

Na prática esses sentimentos excluem a essência da democracia – que até admite a polarização -mas nunca a ditadura do pensamento único. Não é democrática a divisão de uma nação “entre os que não são como nós” e os que “pensam como eles”.

Não haverá um país desenvolvido onde houver apenas o ódio, ou somente a injustiça, sem a prevalência da genuína democracia, que é o da tolerância no cotidiano, a aceitação do “outro”, a crença de que a formação de uma eventual maioria para a boa governança deva ser vista não como a“derrota para eles”, mas a vitória do país como nação. Mudanças são necessárias.

Na lei eleitoral e no sistema partidário. Quem sobrevive a um Legislativo com 32 partidos representados em plenário? E há uma “fila” de outros 70 esperando a homologação do TSE?

Trata-se de uma caótica Babel que é um convite às barganhas dos petrolões, com direito a um indecoroso mês de “bonificação” – em que o verbo“trair” é estimulado e conjugado sem medo.Há partidos que já mudaram de nome inúmeras vezes.De dez em dez minutos surge um partido novo e os trânsfugas vão mudando de camisa e de cueca, “aquelas”, com carteira embutida, própria para guardar dólares.

Multiplicam-se nessa sopa de aletria miríades de legendas constituídas à sombra dessa kafkiana legislação eleitoral, que a tudo permite, especialmente o excesso de partidos. Qual desses 32 “paletós” nos representa? A primeira reorganização eleitoral deveria introduzir o voto distrital.

Um parlamentar representa o universo dos seus eleitores, circunscritos em“distritos”. Recebe uma procuração do eleitor para representá-lo segundo os programas e as idéias do partido ao qual pertence – e pelo qual foi eleito.

Hoje, os próprios partidos não sabem o tamanho de suas bancadas. Elas mudam ao raiar de cada nova aurora, sob a luz tóxica do fisiologismo.Uma vez eleitos, os parlamentares – com as honrosas exceções que confirmam a regra – rompemos seus vínculos com os eleitores, vestem um paletó novo e vão tratar do seu bolso e do seu “negócio”.

Não há mácula maior para o Poder Legislativo do que essa lamentável “Bolsa Parlamentar”. A primeira reforma é a política, como requisito mínimo para a governabilidade. Com o objetivo de reabilitar-se a insubstituível prática de uma natural e espontânea fidelidade partidária

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