Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


Empatia seletiva

Os protocolos sanitários em vigor não são suficientes? Tudo bem. Então proponham a suspensão de todos os campeonatos. Não, eles não propõem

O novo grito da empatia fashion é contra a realização da Copa América no Brasil. Ok. Os empáticos acham que não é seguro realizar competições futebolísticas? Os protocolos sanitários em vigor não são suficientes? Tudo bem. Então proponham a suspensão de todos os campeonatos. Não, eles não propõem.

Copa América de 2021 será disputada no Brasil após decisão da Conmebol – Foto: Lucas Figueiredo/CBF/NDCopa América de 2021 será disputada no Brasil após decisão da Conmebol – Foto: Lucas Figueiredo/CBF/ND

O slogan escolhido é “Copa América não”. Eles chegam a projetar um aumento de casos de covid se o Brasil sediar essa competição. É mesmo?

Então respondam o seguinte: só na fase de grupos da Copa Libertadores o Brasil recebeu 21 times estrangeiros. Na Copa América receberá 9. Cada um desses 9 chegará e ficará controlado no mesmo lugar – diferentemente dos 21 da Libertadores, que vinham e voltavam conforme o andamento da tabela.

E aí, empáticos? Por que vocês não gritaram contra isso? A pergunta contém o benefício da confiança de que vocês estão preocupados com a saúde da população e não estão fazendo proselitismo idiota contra o fetiche preferido por dez entre dez heróis da resistência cenográfica – praguejar contra o Bolçççonaaaaro…

Queremos levar a sério a preocupação de vocês com os riscos sanitários e não podemos, portanto, sequer cogitar que vocês tenham apenas achado mais um jeitinho esperto de gritar genocida e fazer o teatrinho do salva-vidas que vai para muviquinha de hotel chique pegar sol numa boa (talvez achando que não será reconhecido sem máscara).

Então continuemos com as perguntas sinceras aos reis da empatia: por que vocês não se chocam também com o campeonato de ônibus lotados, vagões apinhados, pagode (ruim) de prefeito sem máscara, muvuca de comemoração eleitoral e aglomeração de mortadela?

Voltando ao futebol: o Flamengo foi crucificado quando propôs a volta segura dos campeonatos, em meados do ano passado. Depois, num passe de mágica, a cruz sumiu. O Flamengo até foi o campeão brasileiro – e aí não teve patrulhamento fúnebre.

Empatia tem hora. Renan Calheiros, o novo herói da imprensa nacional, disse que a Copa América é o campeonato da morte. E os éticos, empáticos, solidários, humanos, lindos, delicados, civilizados e cultos já deixaram claro: quem não estiver com o Renan Calheiros entra na porrada.

É o grande astro da CPI e um aliado fiel de Lula – o bom ladrão – que por sua vez é ídolo de Tite, o técnico da seleção brasileira que fez uma pausa solene sobre a possibilidade de disputar a competição da morte, conforme sentenciado pelo Dr. Calheiros.Saudade de Lula não é empatia, é no máximo empatite. E o campeonato mais numeroso e nocivo de todos, atualmente, é o dos hipócritas.

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