Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


Explosão de amarguras

Ainda bem que a gente pesca, Lelo, porque a carne de boi tá tão cara que restaurante anda picando pescoço de vaca

– Venanço, tu ainda consegue ir à feira?

– Não dá mais, Lelo. Tomate, cebola e tá tudo com preço acima de cinco reais o quilo. Verdura e fruta agora é só pra uns poucos.

Pâmela recomenda que as pessoas aproveitem a quarentena para frequentar as feiras de produtos naturais – Foto: Reprodução/Pixabay/NDPâmela recomenda que as pessoas aproveitem a quarentena para frequentar as feiras de produtos naturais – Foto: Reprodução/Pixabay/ND

– É, nós temo de voltá a ter a nossa lavourinha atrás de casa.

– Ainda bem que a gente pesca, Lelo, porque a carne de boi tá tão cara que restaurante anda picando pescoço de vaca.

– Olha só quem vem ali, Venanço! Será que ele te ouviu, foi? O Abrósio da Mercearia, é. Ele mesmo. E aí, seu Abrósio?

– Oi, amigos. Eu? Eu vou de mal a pior. Como se não bastasse o coronavírus, estamos enfrentando a epidemia de preços malucos. Tem gente comendo pirão de água com ovo e, mesmo assim, por que tem galinha no terreiro. As vendas da minha mercearia desabaram em mais de 50%; nem fiado querem mais comprar, desabafa Ambrósio.

– Posentão, e nem dá pra entender. Ouvi dizê que chilenos e argentinos estão pagando menos de 3 reais pelo litro da gasolina que compram da Petrobras. E o Bolsonaro e o Guedes não tão nem aí. Até o álcool já passa dos 5 reais o litro, desaba Lelo.

– Olha, gente, o nosso amigo, o professor Afrânio, ele me disse que os três poderes – executivo, judiciário e legislativo – construíram seus guetos dentro da nação e ignoram a tragédia social brasileira. Vejam, por exemplo, num país com nossas dimensões, a vacina já deveria ter atingido mais de 60% da população e não passamos de 15%. Esses poderes pouco se sensibilizam com tantas mortes, com os sofrimentos familiares. Estamos mergulhados no oceano da corrupção, dos desmandos, da ingovernabilidade em todos os níveis.

– É isso mesmo, seu Abrósio, tem gente morrendo de falta de esperança. E a culpa é sempre do coronavírus, observa Venâncio.

– Mas o povo anda muito quieto, escondido nas máscaras…

– É verdade, Lelo. Lembro-me de que em S. Paulo, rinoceronte, mosquito e macaco foram lançados candidatos a vereador em 1959. E só o rinoceronte recebeu mais votos que a soma de todos os candidatos lançados por partidos, coloca Ambrósio.

– Não adianta, já lançamos tantas antas e zebras, até o Tiririca, e não resolveu.

– Venâncio tem razão. Achincalhar e enxovalhar nada apoquenta os políticos, reservados na surdez de seus isolamentos. Enquanto formos uma Nação de educação desnutrida continuaremos na amargura.

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