Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Fiéis à infidelidade

Na política, quem troca de “camisa” pode perder o mandato, mas a regra não é absoluta

No futebol, é natural. Só falta acontecer a troca de camisa durante o intervalo de um tempo para o outro. Não existem mais “amores eternos” de um profissional por um único time de futebol.

Na política, quem troca de “camisa” pode perder o mandato, mas a regra não é absoluta. Admite “exceções e interpretações” – e aí, vale tudo. Como, por exemplo, sair do partido pelo qual se elegeu para fundar um partido novo.

Criciúma x Novorizontino – Foto: Celso da Luz/Criciúma EC/NDCriciúma x Novorizontino – Foto: Celso da Luz/Criciúma EC/ND

É o velho hábito de respeitar o direito de ser infiel. Ressabiados, alguns trânsfugas temem perder o mandato: – E se eu quiser voltar ao meu partido velho?

Sim, assim como adesões têm regra, o arrependimento também tem. É só provar um “arrependimento eficaz”… Certo deputado arrependeu-se depois de aderir ao novo PSD. Suplicou ao antigo ninho tucano um retorno envergonhado: – Quero voltar! Estou arrependido!

E o presidente dos Tucanos, fingindo nojo, posto que o seu partido também gosta de “aves novas”: – Não te quero mais! Nem pra troco! Os partidos que perderam os seus pássaros, querem “de volta” o mandato das aves de arribação, segundo o princípio de que este mandato não pertence ao candidato eleito, e sim ao partido. Mas a política está cheia de “mutantes”, que levam, sim, o seu mandato. Vá se entender…

No fundo, todos preferem que prevaleça o “direito dos trânsfugas e que se respeite o instituto da “fidelidade à infidelidade”… Em todo o mundo dito “civilizado” os derrotados de uma eleição ganham o direito de organizar uma digna “oposição”.

No Brasil, ganham o direito de organizar a… “adesão ao mais forte ou ao mai$ atraente”: – Quantos votos trazes aí? – Um milhão e duzentos! Quase um Tiririca! – E quanto queres pelo “apoio”? – Um ministério, cinco secretarias de Estado e mensalão pra turma toda, claro!

A partir daí, o céu é o limite. O trânsfuga só precisa ensaiar bem as razões de sua “roupa nova”, para não confessar o inconfessável. – Por que é que o senhor está aderindo a esse novo partido? – Gostei do projeto. É um partido que prega o desenvolvimento com distribuição de renda… – E o seu partido de origem, prega o quê? – Nem sei. Tem muito cacique e pouco índio. O melhor mesmo é fundar um partido novo. – O senhor não acha que já tem muito partido novo no Brasil? – Pois é.

Partido inteiro é que não tem mais. Só “partido”. – Por que é que o senhor não escolhe um desses que já estão por aí? O Partido dos Aposentados, o Partido dos Peixinhos, o Partido dos Comedores de Verba, o Partido dos Encantadores de Serpente, o Partido dos Sem-partido, o Partido dos Salvados do Mensalão? O importante é escolher um. E ficar nele! – Ficar?… olhó, olhó, como diz o manezinho: só por uns tempos, né?

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