Rodrigo Constantino

Ele se define como "um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda politicamente correta".


Guilherme Constantino: ‘O desespero tucano’

Os tucanos são defensores da social democracia. Na economia, aceitam algum liberalismo parcial, ou seja, uma presença do mercado, certas privatizações

Imagine um ambiente em que seu único adversário político é uma esquerda jurássica como a do PT, e você, por isso, pode bancar o moderado liberal e até o conservador, quando conveniente, sem qualquer risco de ter seu esquerdismo desmascarado. Não precisa imaginar. Essa era a situação do Brasil antes do advento das redes sociais.

Ex-residente Luis Inácio Lula da Silva – Foto: Divulgacão/Paulo Alceu/NDEx-residente Luis Inácio Lula da Silva – Foto: Divulgacão/Paulo Alceu/ND

A imprensa, dominada pelo pensamento “progressista”, acusava o PSDB de ser de direita. E ficava por isso mesmo! Os tucanos são defensores da social democracia. Na economia, aceitam algum liberalismo parcial, ou seja, uma presença do mercado, certas privatizações, mas estão longe de representar o liberalismo clássico.

Nos costumes, endossam o relativismo moral, abraçam a ideologia de gênero, cotas raciais, toda cartilha de um PSOL da vida, sem muita distinção. Historicamente são mais moderados na forma, é verdade, apesar de governadores tucanos se mostrarem os mais autoritários nessa pandemia. Mas é muito mais uma diferença de estilo que de essência. No fundo, a satisfação com que FHC entregou a faixa presidencial ao “operário” Lula expõe bem as afinidades, maiores do que as desavenças.

O que tínhamos, portanto, era uma briga interna da esquerda pelo poder, sem espaço para a verdadeira direita. Como o PT abusou desse poder com os enormes escândalos de corrupção, e destruiu a economia com o nacional-desenvolvimentismo, os tucanos apoiaram o impeachment de Dilma, e acharam que o caminho icaria livre para eles. Não contavam com Bolsonaro, com uma população majoritariamente conservadora nas pautas de costumes, cansada do esquerdismo que dominou o país nas últimas décadas.

A pandemia foi o “presente da natureza” para tentarem destruir o governo, exatamente como seus equivalentes americanos, os democratas, fizeram contra Trump. A atriz Jane Fonda chegou a admitir isso, e no Brasil o ex-presidente Lula fez o mesmo. Os tucanos são mais discretos, mas não conseguem esconder: enxergam na pandemia a oportunidade para se livrar de Bolsonaro e retornar ao modelo anterior.

Em entrevista recente, o senador Tasso Jereissati, cacique tucano, avaliou: “Bolsonaro está queimado”, e o centro enfrentará Lula. Jereissati chama a esquerda mais “light” de centro, um vício do passado e uma estratégia do futuro. Ele airmou que a pandemia tirou o presidente do jogo e que o país não deve temer o petista. Claro: os tucanos não temem o PT, só Bolsonaro.

Os tucanos morrem de saudade do tempo em que eram a única “oposição” aos petistas. Hoje sabemos que, se depender do PSDB, o PT transforma o Brasil numa Venezuela. Enquanto Lula existir como ameaça concreta, o povo vai buscar uma opção robusta contra o socialismo. Os tucanos jamais serão tal opção. O “centro” não tem vez nessa polarização, pois o risco Lula é real, e o PSDB se nega a aceitar isso, por simpatia ou cumplicidade.